domingo, 3 de janeiro de 2010

Freeee Sex

Dois pesos, duas medidas


Eles se conheceram em uma festa... conversaram e encontraram afinidades... porém ele não queria nada sério, só queria ter sexo casual... ela também topou, mas com o tempo foi criando um sentimento maior por ele...


Essa história é muito peculiar nos dias de hoje. Algumas ficadas que acabam se transformando em uma paixonite para um dos lados. E quando, nessas casualidades, uma expectaviva não satisfaz a expectativa da outra pessoa, um dos lados certamente vai sofrer. Não existe algo chamado sexo gratuito. Sempre há um preço.


De uma amizade, afloraram algumas trepadas, que logo passaram a se tornar um circulo amoroso que não havia sido planejado. De um lado o candidato a garanhão e do outro a menina que acredita em contos de fadas.


Ela não conseguia controlar seus sentimentos e ele estava em cima do muro. Viu que a oferta fácil tinha o seu quinhão, um preço que ele não estava disposto a pagar...

domingo, 27 de setembro de 2009

Na Xinxa

No jornal a comemoração dos policiais. O bandido Sérgio Ferreira Pinto que ameaçava estourar os miolos de uma vítima com uma granada na mão, levou um tiro certeiro de um atirador de elite e acabou falecendo.

Policiais comemoraram a ação, que logrou êxito (a morte do bandido foi um mal necessário, segundo eles). Bem diferente da ação dos policiais no ônibus 174 no Jardim Botânico, há alguns anos atrás, quando uma vítima morreu por um disparo precipitado de um policial. A imagem da polícia fora lavada a base de vísceras e sangue e a mídia fez coro a mais um espetáculo da violência urbana.

Depois aparece um cineasta intelectual pra contar a história do bandido. Enquanto isso nas favelas, crianças crescem sem acesso a educação, esporte e lazer.

sábado, 19 de setembro de 2009

Reminiscências




O mundo é tão injusto a começar por mim,
Quanto velhos e crianças sem ter o que comer
E eu que sempre tive tudo ao alcance das mãos
E nunca parei pra ser luz aos olhos turvos

E nunca parei para agradecer a Deus
Nunca agradeci...
Eu nunca agradeci...

sábado, 22 de agosto de 2009

Sob o céu de Saturno

Se você pudesse voltar ao tempo você mudaria alguma atitude que tivesse feito? Faria algo ou deixaria de fazer?


John está deitado sobre sua cama, olhando para o teto, as estrelas, objetos espaciais fluorescentes que sua mãe botara quando era bebê. Eles ainda estão lá, mesmo passados 22 anos de incertezas e crises de identidade. Pega um vinho debaixo da cama, abre e se esquenta com alguns goles dessa bebida boa e barata que se viciou desde os 14, quando saia com amigos nas festas de rock, nas casas Noturnas do Rio de Janeiro, com os melhores shows de Rock que poderia assistir.

Ele sempre fazia o que queria, mas porque estava assim? Entrar na faculdade foi uma consequência de um ciclo natural, que todos fazem. Mas a sua nova oportunidade, que embora fosse bastante disputada por outros candidatos, não o deixava contente. Era muita papelada, sempre tinha que reportar aos mesmos sujeitos que o olhavam com desdém e as vezes até com certa ironia. Estava se sentido sufocado, preso a um futuro que não queria dar sequência.

- Por que não continuei na carreira de música? Pensava ele, e assim podia requintar seus rifes de guitarra, perpassar as notas das letras, sair pelos cantões, conhecer mulheres, bebidas... Rock'n Roll!

Seus olhos vão se fechando em um sono inesperado. Gostaria ele de se emergir no sono e fugir da realidade, pelo menos pelos próximos 457 anos! Ele está caminhando em uma esteira rolante, que mais parece levar pra lugar algum. Ao final, vê algumas formas cintilantes, um céu abobado, com imagens pueris e infantis. As estrelas são enormes e a lua sorri olhando para ele.

- Olá meu nobre amigo! John rapidamente se vira para trás, pra saber de onde surge aquela voz.
- Quem é você?
- Prazer, pode me chamar de Woodstock! Eu vim lá do "Iê Iê Iê" para ter um papo contigo.
- Co-co mo assim?
- Vamos por partes... Você está infeliz, não está? Vejo isso em sua feição.
- Bom, isso é verdade... estou sentindo um vazio. Não sei se devo me conformar com isso.
- Na verdade muitos sentem isso. Muitos têm esse vazio e se conformam. Talvez seja o mal da humanidade. Fala Woodstock, asseverando as últimas palavras, com sua mão sobre o queixo em pose filosófica. - Mas você... fala isso virando-se e apontando para John, - Você meu nobre amigo, não precisa passar por isso. Você tem o Rock em suas veias e o seu caminho não deve ser o mesmo que os soldados capitalistas.
- Que papo maluco é esse?
- Você não quer acreditar em mim? Saiba que essa pode ser a oportunidade de você mudar a sua vida!
- Mas como? O que você pode fazer pra tirar esse vazio de mim?
- Caro John, você é um rapaz admirável. Mas certamente fez algumas escolhas erradas em momentos decisivos. Eu quero dar a oportunidade de você voltar ao tempo e poder refletir sobre suas escolhas.
John estava pensativo. Não acreditava de onde poderia ter surgido àquela imagem de um sujeito que mais parecia ter saído das festas hippies americanas dos anos 70, para falar com ele naquele momento.
- Tudo bem, isso é um sonho. Vou me concentrar e logo acordarei e estarei livre dessa palhaçada.
- Você pode fazer isso John, mas irá perder uma grande oportunidade que lhe concedo. Bono Vox e Axl Rose souberam aproveitar esse momento. Tudo bem, esse último engordou uns quilos ultimamente. Mas o que quero dizer é que você pode ser aquilo que sempre sonhou.

Woodstock abre imagens holográficas entre os dois, com imagens de John quando criança.
- Vê, esse aqui é você! John não acredita! Seus pais mais novos dando banho nele quando criança. Seus avôs e tios na festa de primeiro ano. Por mais que fosse um sonho, não poderia criar imagens tão perfeitas e com diferença de época, estampada na face de cada familiar. - E então John... o que me diz?
- Sim, eu quero voltar!
- Ok, vamos voltar ao tempo. Somente quero lembrar que dentro de cada momento que queira voltar, você não irá lembrar do futuro que até aqui viveu e terá que arcar com todas as consequências da sua escolha.
- Tudo bem! Eu assumo o risco.

Sua vida vai regredindo através de um filme. Dentro dessa regressão, Woodstock vai mostrando as várias ramificações que sua vida tomou, de acordo com a escolha, e com a escolha das escolhas, e assim por diante.
- Vê, essa é a Letícia, lembra dela?
- Claro, ela era linda.
- Já fazem dois anos que você quis terminar com ela por achar que ela havia traído você.
- Sim, é verdade. Mas as vezes me arrependo por isso.
- Eu sei que se arrepende. No fundo você não quis terminar, mas você se deixou influenciar muito pela opinião dos outros... e quer saber? Ela nunca lhe traiu.
- Não?
- Exatamente. E se tivessem juntos agora, estariam muito felizes. Mas esse é um passado que não se pode mais voltar. Uma vez revelado não se pode entrar.
- Tudo bem, diz John com os olhos marejados. Sei que ela agora está feliz com outro, acho até que já teve um filho. Não me sentiria bem se interferisse na vida dela dessa maneira. Woodstock dá um sorriso cético.
- Vamos voltar! Woodstock vai voltando a "fita"! Perde-se noção do tempo. O espaço rompe as fórmulas físicas. Muitas cenas alegres, outras nem tanto e John vai relembrando e admirando o seu mundo sob seus olhos.

- Espere! Diz John
- O que foi?
- Esse é o momento que tive que decidir entre fazer Economia ou Arquitetura.
- Dois cursos bastante diferentes, diga-se de passagem, comentou Woodstock.
- Sempre quis Arquitetura, mas meus pais queriam que eu tentasse Economia.
- E acabou passando nas duas...
- Pois é... as vezes penso como seria se eu tentasse Arquitetura. Acho que tem mais a ver comigo.
- Bom, se é isso que diz... quer arriscar? John pensou um pouco mais. Seria interessante voltar ao tempo e fazer Arquitetura?
- Ah não sei... acho melhor não... acho que meus problemas estão mais atrás.
- Ok "amo". Vamos regredir. Não quero ser estraga prazeres, mas você seria um grande arquiteto, inclusive trabalhando em grandes projetos no Oriente Médio logo que terminasse a faculdade.
- Puta que pariu, pensou John.
- Vamos voltar!

Woodstock volta cada vez mais sua vida, e é possível para John, perceber que as ramificações vão deixando de existir. Ele toma ciência, que a cada dia, a cada minuto, cada segundo, estamos a pequenos passos de mudarmos grandiosamente nossas vidas. Talvez ele tenha errado coisas atrás que não condissessem com o que realmente gostaria de ser. Queria voltar a sorrir, como nos tempos da adolescência, em que fazia tudo o que queria. Esse espírito não era muito condizente com os tempos habituais, com as roupas sociais e com os horários e tarefas e serem cumpridas. Não queria deixar de ser adulto, mas queria resgatar aquele espírito de rebeldia que estava sufocado na garganta, apertado pelo nó da gravata.

- John, John...
- Eu!
- Esta perdendo a passagem de sua vida... quer voltar desde quando era um esperma?
- Não, desculpe... eu estava distraído.
- Ok, irei passar mais devagar.
- Certo.
Os dois foram revendo e rindo de algumas situações vividas, umas até que fizeram John escapar de grandes apuros, ao qual Woodstock fez questão de citar.
- Lembra desse dia John? Esse foi o dia que você quis terminar com a banda para estudar pro Vestibular.
- Lembro sim! Até hoje fico com essas palavras na minha cabeça.
- Pois é John, você tinha potencial... e não digo isso da boca pra fora. Seus amigos, todos, sentiram com a sua saída. Eles tentaram por mais algum tempo seguir com a banda, mas você era a referência pra eles, você era o líder. A sua decisão não repercutiu apenas na sua vida, mas nas deles também, por que cada um acabou se desprendendo do meio musical.
- Não sabia que eu era tão importante assim pra eles.
- As vezes somos tão importante para os outros que nem nos damos conta do valor da nossa existência! John dá um suave riso. Está em êxtase na possibilidade de poder voltar ao tempo, rememorar sentimentos que mais pareciam ter sido enterrados.
- Woodstock, eu quero voltar! Na decisão de John, Woodstock dá um farto sorriso e bate no ombro de John.
- É assim que se fala "my man". Sempre soube que você ainda era um dos meus.
- Mas e agora? O que vai acontecer comigo?
- Nada! Você vai acordar como se nada que tivesse vivido depois dessa data houvesse acontecido. Em sua mente não vai pesar a decisão de sair da banda, mas tudo que fizer após será consequência sua, e espero que faça as decisões certas.
- Tenho certeza que agora irei fazer Woodstock. Obrigado pela oportunidade.
- Me pague com boas melodias. O mundo precisa ouvir!

Um brilho surge ao fundo do céu e o mundo pareceu cair. Sob o piscar dos olhos, ele acorda, na sua cama, no seu quarto... olha em volta, atônito... parece ter uma amnésia, breve confusão que vai se dissipando aos poucos. Vê a guitarra no canto do quarto, as letras na mesa, do qual no futuro estavam engavetadas. Sua mente vai novamente injetando a adrenalina que um dia havia cessado. O telefone toca e ele atende. É o Karl.
- E aí John, tudo bem?
- Fala Karl, tudo na paz!
- Confirmado o ensaio hoje? John olha para o calendário na parede. Era sagrado sempre ensaiarem as terças e quintas e as vezes, no Domingo, quando os pais do Bob não estavam em casa.
- Claro, nos vemos às sete.
- Beleza. John olha pro relógio, já são quatro e meia. Antes vai passar na casa da Letícia, pois haviam combinado de terminar o trabalho de história sobre a segunda guerra mundial. Tinha comprado dois ingressos para o show do Red Hot Chilli Peppers no Brasil, na esperança de que ela aceitasse também.

As sete e quinze John chega no estúdio. Todos já estão quase prontos pra começar.
- Porra John, de novo atrasado. Nós temos hora, meu dinheiro não é capim!
- Foi mau Bob, é que eu passei na casa da Letícia.
- Aê garoto! E então, quando vai dar uns pegas nela? Perguntou o Karl.
- Não é nada disso Karl, fui apenas entregar o trabalho do colégio. Mas finalmente ela aceitou meu convite pra sair comigo.
- Que isso hein rapaz? Mandou benzão agora. Estou até impressionado contigo, retrucou Karl.
- Pessoal, enquanto vocês conversam o tempo passa. Falou Dino mais ao fundo.
- Tudo bem, estou quase pronto. John liga a guitarra no amplificador, faz rápidas afinações e em instantes já estão ensaiando entre covers do Pearl Jam, Creed, Nirvana e Silver Chair, além de músicas próprias.

Passadas duas horas, os dedos já estavam cheios de bolhas, mas estavam animados, pois conseguiram bons resultados e melhoraram suas performances.
- Pessoal, eu tenho uma ótima notícia pra vocês. Disse Dino.
- O que há? Perguntou John enquanto pegava uma garrafa de água na geladeira.
- Vamos tocar no Festival de Rock, na cidade de São Gonçalo. E eles vão dar cachê. Disse Dino aos risos.
- Nossa, vão pagar pra gente tocar? Estamos melhorando nossa reputação. Já estava satisfeito em pagar a gente só com bebidas.
- Estamos no caminho certo. Agora é mandar um cd demo pra alguma boa gravadora pra que eles vejam nosso potencial. Disse Bob.
- É galera, o lance está indo bem! Tenho certeza de que iremos fazer sucesso. Complementou Karl.
- E como iremos até lá? Podemos ir no meu carro ou de ônibus. Disse Dino. Nesse instante passou um flash na mente de John. O simples fato de ter que decidir sobre uma das escolhas, uma decisão que poderia mudar a vida de todos. Certamente não imaginamos o peso dessas decisões, mas naquela hora, John parecia estar sobre uma dúvida cruel e difícil, que parecia querer consumir a ele todo. John estava pronto pra falar quando...
- Podemos ir no seu carro, Dino, disse Karl.
- Eu também acho. Vai ser melhor pra guardar nossos instrumentos, falou Bob.
- Galera, eu acho melhor irmos de ônibus. Não conhecemos o local direito...
- Deixa disso John. Na Kombi cabe todos nós, numa boa. Não terá problemas de espaço e eu já conheço aquele local de outros festivais.
- Mas mesmo assim, acho que seria melhor irmos de buzão.
- Relaxa John, completou Karl. E depois, pra onde vai querer levar as garotas que catar na festa? Vai pagar Motel? Todos caem nos risos, enquanto John dá alguns goles em sua água.
- Bom, sábado nos vemos as quatro da tarde na minha casa. Vamos detonar, exclamou Dino.
- Yeah!

Todos começam a se arrumar. John guarda cuidadosamente sua guitarra. No final, acaba levando em conta que a idéia de irem na Kombi do Dino seria a melhor. Estava contente com os rumos que iria seguindo a banda. Iria terminar umas composições que havia feito, depois pensaria em algum desenho para as camisas que poderia vender da banda no festival. Pensava em conhecer pessoas novas, ganhar influência, repercussão. Estava dedicando todo seu tempo livre nesse projeto e estava muito entusiasmado com o futuro que os estaria reservando, como se alguém desse um sopro no seu destino, mostrando pra eles o caminho a seguir.

O sábado se anuncia, pelo sol que emana por entre as montanhas da Zona Norte carioca. John toma seu café e arruma seu instrumento como em um ritual. Olha as cordas, os trastes, cuidadosamente. Ao mesmo tempo em que sente um entusiasmo por estar com os amigos na banda, tocando e mostrando seu show para outras pessoas, sente um vazio difícil de explicar, que parecer se incorporar nele como um abraço, frio e inexplicável.

As horas vão avançado John chega na casa do Dino, que está arrumando os pratos da bateria dentro da Kombi.
- Venha John, vem ajude a tirar esse banco para termos mais espaço para guardar os instrumentos. John rapidamente chega para ajudar o Dino. - Que foi rapaz? Se sente bem?
- Não sei... acordei meio estranho hoje. Não saberia explicar como.
- Relaxa brother... fuma uma erva que você vai ficar logo no clima.
- Já disse que eu não quero isso.
- Fica tranquilo. Isso é uma decisão sua. Ninguém vai te obrigar a nada.

Karl e Bob chegam com seus instrumentos. Agora a banda estava completa. Começavam a aparecer algumas nuvens no céu, mas nada que pudesse impedir deles tocarem. Com tudo arrumado, era hora de partir. Seguem eles pelas ruas da Zona Norte em direção a ponte Rio-Niterói. Todos falam alto e com o rádio no último volume. Entre uma conversa e outra, Dino pega uma caixa que está dentro do porta-luvas. Joga para Bob, que está sentando atrás. Ele abre e sente o forte cheiro da erva. Vários cigarros de maconha para relaxarem antes, durante e depois da apresentação. John olha meio de lado, nunca teve interesse nem se mostrou disposto para fumar com os amigos e nem mesmo sabia de onde tirava tanta convicção já que a maioria dos seus amigos era usuário moderado à viciado em drogas. Bob acende um cigarro e a fumaça começa a enevoar dentro da Kombi. Rapidamente a caixa é passada para o Bob que está no banco da frente. Ele acende o dele e o do Dino, que contribuem para aumentar a densidade de fumaça dentro do carro.
- John, não vai experimentar uma? Diz Bob com a sua acessa.
- Filhotes, eu já falei pra vocês...
- Cara, sua mamãe não tá aqui. Larga a mão, você não vai ser um Kurt Cobain se fumar essa porra? Todos começam a brincar com John a respeito de experimentar a maconha, fazendo coro: "Fuma, fuma, fuma..."
- Tá bom, me dá essa porra aqui! Disse John com um tom decisivo. Todos começam a fazer coro, enquanto Bob passa a caixa com os cigarros. John pega uma e sem titubear amassa, acende e traga a maconha. Ele fecha os olhos com força e logo solta a fumaça com uma sensação de alívio. Todos começam a gritar e a comemorar.
- No início é complicado mesmo. Depois seu organismo acostuma e fica bem legal, disse Karl.
- Só acho melhor não continuarmos mais pra não comprometermos o show.
- Não tem o que se preocupar John, disse Dino enquanto se virava pra olhar pra ele. Sempre quando eu fumo, sinto uma sensação de...
- Olha a frente, gritou John a Dino. Dino se virou, mas já era tarde. Sua Kombi havia batido com força no lado direito em um caminhão que estava mal acostado, com um pneu furado, aguardando ajuda e sem nenhum tipo de sinalização. O ônibus que estava a sua frente, talvez tenha impedido a visualização, mas a imprudência e a falta de atenção também colaboraram para que ocorresse o acidente.

Dino tentou virar o volante ao máximo para a esquerda, mas o impacto fora impossível de ser evitado. A Kombi começou a capotar no meio da pista, atravessando as faixas. Objetos de dentro do carro começaram a ser arremessados para fora, dentre eles o corpo de Dino, depois o de Bob. A Kombi jaz um automóvel e agora um monte de retalhos de metal retorcido. Bate na mureta do meio, atravessa novamente a pista e vai de encontro à mureta extrema. John sofreu várias fraturas, está banhando a sangue e mesmo sentido muita dor ainda se sente lúcido em seus últimos momentos de vida. De repente ele relembra da vida dele, que há alguns anos à frente ele decidiu voltar para começar a banda. E recomeçou... recomeçaria. Sob as lágrimas, que se misturam ao suor e as poças de sangue, John dá um último sorriso de ironia à vida.
- Eu tentei...

Quando Jonh acorda, está suando frio. Olha seu relógio e são 2 horas da manhã. Havia chegado da faculdade cansado e decidira dormir. Teve um pesadelo, tão real que suas mãos pareciam estar trêmulas. Sabia que sua vida talvez não estivesse como desejasse, mas viu que não deveria ser ingrato. A vida lhe cercara de boas coisas e talvez ele ainda não tenha percebido. Viu tudo que conquistou e tudo o que haveria de conquistar. Os desejos do passado ficaram como boas lembranças, mas fazem parte do passado e ele aprendeu que cada fase na vida deve ser vivida. Talvez um dia, ele retome seu talento musical, mas viu que pra ele, naquele momento, existiam outras prioridades.

Prometeu que iria ligar pros amigos da antiga banda, saber como estavam, marcar de sair pra conversar. Programou seu final de semana e esperou tão logo chegasse a segunda para por as pendências em dia dos seus compromissos e saber valorizar cada momento. Pegou a toalha para tomar banho, mas antes disso havia pensado: "e seu fosse arquiteto?". E com esse pensamento ele foi tomar sua ducha...

sábado, 8 de agosto de 2009

Por Hoje


Nada hoje será melhor pra mim do que comprar um sonho na padaria do meu bairro.
Ver as crianças brincando na praça sob o céu lilás.
Reencontrar velhos amigos... fazer novos também!
Expressar-me, comunicar-me

Saber que existe um lar que me sirva de refúgio
Ter um chuveiro com água quente, uma cama limpa, roupas cheirosas.
A comida na mesa, a coca "2 litrão" do fim de semana
Aprender com erros, aceitar quando há a derrota... mas lutar, sempre!

Poder ver o por do sol, do alvorecer ao seu crepúsculo (por que você não tenta também?)
Encher o pulmão com o ar puro, sentir apetite por viver!
Sorrir quando menos esperarem e mitigar o ódio das pessoas
Acreditar e confiar em Deus, saber que existe o amanhã.

Hoje eu quero dormir em paz comigo mesmo,
Amar mesmo sem ser amado, viver sem esperar todas as respostas...
Olhar o que passou e ver que ainda há muito mais a viver
Agora apague a luz, vamos dormir!

domingo, 12 de julho de 2009

Entre os Grandes Lábios





Sussurros, gemidos, fricções, atritos
Carícias, afagos, fervores, arrepios

Suores, odores, tremores, pulsões
Intenso, forte, gradativo, infinito
Impulsão, propulsão, erupção, Deus!
Amor, paixão, tesão, encenação...

Transformação, fases, mudanças,
O amor, o fraterno, o respeito, carinho...
Rompimento, gemidos, contrações, gritos

Luta, ranger, força, luz!
A vida
O choro
O eterno.
.
.
.
.
Do profano ao sagrado...

domingo, 28 de junho de 2009

Mais e menos




Hoje acordei prometendo que seria mais gentil
Menos ouvinte
Mais falador
E também me tornaria mais paciente

Seria não tão humilde
Não tão sincero
Pois virtudes em excesso
Se tornam traiçoeiras

Seria mais amigo
Ainda mais correto
E menos detalhista

Mais confiante...
Mais otimista
E não muito realista

Prometi que seria generoso
Que acreditaria nos outros
E me precaveria na medida certa.
.
..
...
Acho que na verdade eu deveria ser eu mesmo.

sábado, 14 de março de 2009

Pedofilia

Pedofilia não é apenas um ato desprovido de valores,
é um retrocesso da natureza humana, a destituição do caráter do indivíduo.



Um caso mostrado recentemente causou comoção entre as pessoas; uma menina de apenas 9 anos havia sido estuprada pelo padrasto e o desgraçado ainda havia engravidado ela. A decisão da família, da qual não vou fazer nenhum juízo de valor, foi a de abortar o feto. Os médicos tiveram dificuldade pela infecção vaginal que a menina apresentava, mas conseguiram realizar com sucesso.

Nesses dias de pós-carnaval, vi alguns noticiários com fatos escabrosos. Um deles dava conta de um engenheiro pós-doutorado pela USP, que abordou uma menina que vendia chicletes no sinal de trânsito em SP. Ele colocou ela no carro e a levou para um local ermo para estuprá-la. A polícia estranhou o movimento naquele carro e para surpresa encontrou o sujeito já com a camisinha no pênis. A esposa dele ficou chocada e uma das filhas dele tinha a mesma idade da menor (8 anos). Outro caso chocante é o da máfia da pedofilia no Pará que envolve diversos políticos e pessoas de alto poder aquisitivo.

Será que existe algum surto psicótico nessas mentes? Como tratar pessoas que defloram a vida dessas crianças causando conseqüências irreversíveis na sua vida adulta, incluindo dificuldades no relacionamento com outras pessoas. Casos de pedofilia ao meu ver, devem ser tratados com o máximo rigor da lei. Como deixar que uma pessoa que tenha esse tipo de pensamento subversivo fique solta em meio a sociedade? Infelizmente ainda precisamos rever muitas coisas no nosso código penal.

Há um tempo atrás eu vi uma reportagem de um cara que era bastante instruído e havia cometido pedofilia contra algumas crianças. Ao ser detido ele justificou que lá nos tempos da Grécia antiga determinados homens "adotavam" crianças instruindo elas e ensinando alguns "valores". Em sua defesa evocou até o nome do filósofo Platão. Esses valores, pelo visto, incluíam a prática sexual... ou seja, além de pedófilo o cara era um filha da puta!

Esse assunto pode remontar aos primórdios da pedofilia, conhecida como pederastia. Era habitual na Grécia que homens de notório conhecimento, acolhessem alguns jovens como forma de ascensão social. Esse mestre ficava encarregado da educação do rapaz e algumas famílias até gostavam que seus filhos pudessem ser educados por alguém com um notório saber. Esse relacionamento entre o mestre e o rapaz muitas vezes passava da mera amizade, ganhando contornos sexuais. Outra característica que difere da pedofilia em si, é que a pederastia é praticada somente de um homem para um adolescente.

Seja como for, uma criança ou adolescente nunca terá o senso de negar algo que não queira perante um adulto. Só me entristece o fato de saber que tantos casos como esse acontecem e a justiça ainda é muito branda quanto a uma merecida punição. De fato, muitos desses caras acabam tendo o tratamento que merecem na cadeia, seja com o kit boneca ou com um cabo de vassoura. É a chamada "justiça underground".

sexta-feira, 13 de março de 2009

Demência

A vida deu um estalo;
Desandou, caiu o mundo e me empurrou
Fui descendo a ladeira, rolando o morro
E nas curvas da minha emoção eu sofri

Viu seu rosto sorrir, estava alí pra lhe cingir
Vi você dormir, fechar seus olhos, se entregar a mim
Estava lá a te abraçar quando te vi chorar
Mas todo esse amor não impediu o nosso fim

Sorri, xinguei, bebi, me iludi...
Blasfêmei a Deus, cuspi aos céus, morri!
Me zanguei, quis gritar, mas esse grito só ecoou em mim
Desejando me acabar, desejando me extinguir

Agora eu sei que tudo se foi
Como uma brisa em uma cidade esquecida
Como a lenda que ninguém mais acredita
E as lembranças são feridas putrefatas

E me rendo as minhas próprias emoções
Me torno escravo da minha existência
Meus sonhos entorpecem minhas ações
Revelando minha alma em vital demência

segunda-feira, 2 de março de 2009

Andorinhas do Sertão

João Maria era o seu nome,
Vivia da terra seca.
Do mato colhia os cactos
Que cosia em sua ceia.

Das terras dos confins do Nordeste,
Dos confins do Ceará.
Araquém era o seu nome,
E João vivia lá.



Os sinos da igreja batem às 19:00hs. João passa na cidade de Araquém, pois sua mãe pediu para comprar meio metro de fumo de rolo, carne seca, dois quilos de arroz, xarope de ervas e fazer uma oração na igreja para seu irmão mais novo, Moisés, que há dias está com febre alta. Da cidadezinha até sua simples casa são cerca de duas horas a passos largos. João Maria caminha sem cansar. Sempre foi de caminhar por toda a sua vida. Diversas vezes andava durante o dia todo para pegar baldes de água do açude na outra ponta da cidade. Ele e os seus nove irmãos sempre passaram dificuldades, ainda mais quando o seu pai os abandonou. Foi melhor assim, pensava João Maria. Sempre quando bebia batia na mãe e nas crianças se estivessem por perto. Sempre quando a mãe percebia que ele chegava, mandava os filhos se esconderem no mato. Preferia sofrer sozinha; sempre tentou de todas as formas evitar que seus filhos sofressem. Mas Dona Rosalinda, por mais que tentasse evitar, não conseguia fazer seus filhos não saberem o que era fome. A fome que bate o estômago, que chega como uma tempestade, e assim foram por vários dias, por várias noites mal dormidas, tendo que conviver com esse companheiro, que assola tantos irmãos do sertão.

João Maria, dos nove irmão, é o oitavo; todos “cabra-macho”. Paulo e Pedro foram trabalhar na colheita da cana-de-açúcar, no oeste do Pará. Davi, o mais velho, está morando há um ano no Rio de Janeiro. Sempre manda cartas e um dinheiro, todo mês pelos correios. De todos era o mais corajoso. Ele que por diversas vezes tentava proteger a mãe da fúria alcoólica do pai, mas aquele menino era inútil, e as porradas vinham fortes, daquelas que tremiam o corpo e os nervos. João Maria sempre se lembrava da infância, de alguns bons momentos, em que Davi liderava a caminhada para buscar água no açude. Quando alguns irmãos brigavam, ele sempre que apartava, jogando terra em cima deles. Na última carta de Davi, pediam para se manterem unidos, e nada temerem, pois sempre iria ajudar a eles. Dona Rosalinda ficava emocionada e ao mesmo tempo aliviada, pois em toda a sua vida, vivia sem saber o dia de amanhã; o que iriam comer, o que iriam fazer... Graças a São Francisco as coisas iriam melhorar. É o progresso, pensava Dona Rosalinda.

Ezequiel, Samuel e Izaías viviam das cabras e do gado que criavam. Ezequiel, o mais velho depois de Davi, era casado e construiu um barraco de sapê ao lado da casinha da mãe, para acomodar a sua esposa Lourdes, grávida de sete meses. Samuel e Izaías estavam noivos e juntado dinheiro pra construir os seus barracos. Estavam contentes por que também, como seu irmão Ezequiel, iriam constituir uma família, apesar de todas as dificuldades. Tiveram por alguns momentos, vontade de peregrinar para o Sudeste, como o seu irmão Davi, mas suas raízes já estão plantadas nessa terra, e não conseguem imaginar outro mundo em que vivam a não ser esse do sertão, apesar de todas as dificuldades.

Roboão, que era o terceiro mais novo, levava uma vida cafajeste. Às vezes ficava dias sem ir pra casa. Ficava na cidade prestando favores a algum “Doutó”, por alguns trocados ou mesmo por uma boa cachaça. Dormia nas calçadas e já era conhecido por lá, pra angústia de Dona Rosalinda, que não queria isso pra ele. Mas um dia, acredita, ele irá mudar, e se tornará um homem decente, que não se preste a favores pros outros como uma criança.

João Maria, com seus dezoito anos poderia ter vários sonhos, como muitos jovens de sua idade têm; várias metas que muitos jovens traçam, mas em sua alma não existem ambições, não existem metas, não existe amanhãs... A vida o fez viver dessa maneira. Já foram tantas as desgraças que só por estar vivo é uma dádiva. João sabe que um dia irá casar, como seus irmãos, fazer uma família, ter filhos e encerrar seu ciclo. Assim ele vive, e sua mente é uma nuvem de poeira, vazia como as dunas do maranhão.

O caminho é escuro e deserto, mas João caminharia até de olhos fechados por essa estrada. Sabe de todas as pedras e de todos os encalços do caminho. E assim o fez até chegar em sua velha casa. João pede a benção à mãe e entra em casa. A mãe está bastante abatida, o filho piorou e está tendo algumas convulsões. Uma vela permanece acessa na cabeceira do seu leito. Sentado na beira da cama está seu irmão Ezequiel com sua esposa, mais Samuel e Izaías.

- Vamos ter que carregá-lo para o hospital, fala Ezequiel. Ele está ardendo em febre.
- Mas o hospital está fechado. Só vai abrir amanhã às dez horas. Responde Lourdes.
- Do que adianta irmos até lá? Nunca há remédios, nunca há médicos, falta tudo, só não faltam doentes... Diz Samuel.
- Mãe, eu trouxe o xarope que a senhora pediu. Talvez com isso ele melhore. Diz João Maria.
- Obrigado filho, responde sua mãe que pega uma colher para por o xarope na boca de Moisés. Ela senta ao lado de Moisés. – Moisés, acorda! Fala Comigo! Dona Rosalinda balança o corpo de Moisés para acordá-lo. De repente seu filho abre os olhos arregalados, imóveis e estáticos. Todos ficam assustados com aquilo. Dona Rosalinda começa a balançar o corpo de Moisés com mais intensidade. – Moisés, acorda meu filho! Eu lhe trouxe o seu remédio, acorde, por favor. E o desespero da mãe se transforma em um grito que poderia ser ouvido por todo o nordeste. De uma mãe que não tem poder para salvar o filho.

Amanhece, João Maria cava no quintal de sua casa, aquele que será o descanso eterno do corpo de Moisés. Algumas lágrimas descem, sem que João mova um músculo da face. Em sua mente está expresso apenas um sentimento, que por estar tão repleto em seu corpo se esvai através das lágrimas. E assim ele continua cavando os sete palmos. O suor se mistura com as lágrimas, a terra recebe líquido que há muito não via. Dentro de sua casa estão todos consternados. Lourdes tenta consolar Rosalinda que chora sem parar.

- Meu filho mais novo... Isso não podia acontecer... Oh meu Deus! E assim se tornou por toda a noite, se tornou durante e após o sepultamento do seu filho. Em sua cova foi fincada uma cruz. Uma cruz bem simples, daquela que seria um grande homem e que teve sua vida interrompida.
O céu está todo azul, um calor incessante, sem trégua. Parece que o sol ficou mais laranja naquele dia. João Maria fica com os olhares distantes, o seu irmãozinho, que por muitas vezes carregava nas costas quando iam pelas andanças. Eles eram os mais apegados um ao outro, e todos percebem isso. Quando iam pra cidade vender o leite das cabras sempre compravam doce de amendoim com o dinheiro de algumas gorjetas. Aquilo para eles era tudo que o mundo podia oferecer de melhor, e eles sempre foram companheiros e confidentes das peripécias da infância. Mas tudo acabou naquele instante.

Dona Rosalinda continua inconsolável, e é de se compreender. As mães sempre criam um xodó pelo filho caçula, e talvez havia muita coisa que Moisés devesse aprender. Lourdes e Ezequiel vão para o seu barraco. Samuel e Izaías caminham para a cidade para buscar alguns pagamentos da última entrega do leite. João Maria fica só com sua mãe Rosalinda e de uma certa forma tenta consolá-la. Às vezes um gesto vale mais que mil palavras e João Maria abraça forte contra o peito para sentir que não está só.

Anoitece. Sua mãe cozinha o arroz com feijão e carne-seca. Lourdes e Ezequiel também jantam na casa de Dona Rosalinda. Seus irmãos retornam da cidade furiosos, falando desaforos sem parar. Dona Rosalinda se levanta e vai para a porta vê-los chegar.

- O que há meus filhos? O que há?
- Que desgraça mãe. Seu Joaquim da venda se negou a pagar o leite que entregamos. Disse que estava estragado e iria chamar a polícia se insistíssemos. Diz Samuel.
- Mas meu filho, não se irrite por isso. E só não vender mais para ele.
- Mas do jeito que seu Joaquim é, vai falar pra toda a cidade que a gente vende leite estragado, e aí iremos vender pra quem? E o pior é que a esse dinheiro iria servir para compra a ração dos animais e os mantimentos. Replica Samuel.
- Nós não somos nada nesse mundo, desabafa Izaías.
Dona Rosalinda tenta manter a calma, mas põe as mãos sobre a face, olha pro céu e pede animo para acalmar os filhos.
- Meus filhos, tenham bom animo. Eu acabei de perder o irmão de vocês, se não nos mantermos unidos eu não sei o que será de mim.
- Eu sei minha mãe, me perdoa. Eu só estava desabafando, responde Samuel.
- Vocês viram seu irmão Roboão? Pergunta a mãe aos filhos.
- Eu perguntei a um dos companheiros que encontrei e ele me disse ele que Roboão estava trabalhando para o filho do prefeito na construção da casa nova dele, lá pra rua três. Eu pensei em ir até lá, mas depois desisti. Estava tão chateado com o Seu Joaquim que só pensava em voltar pra casa, responde Samuel. A propósito, eu passei no correio e peguei essa carta de Davi. Eu abri, mas não tinha dinheiro, só tinha esse papel, e entrega a carta a Lourdes. Na casa a única que sabe ler e Lourdes, que pega prontamente o papel e se põe a ler. Seu olhar penetrante no que lê, pela dificuldade de encontrar as palavras, pelo assunto delicado ao qual lê, deixa todos um pouco apreensivos. Ao terminar de ler todos esperam uma explicação;
- E então, o que ele diz? Pergunta Ezequiel.
- O Davi disse nessa carta que ele ficou desempregado. O pior é que como não assinavam carteira, não quiseram pagar nenhum valor e ele está quase sem dinheiro. Ele pediu que tivessem calma até que conseguisse outro emprego. Dona Rosalinda ouve aquilo tudo com as suas mãos calejadas atadas em forma de prece. Os olhos marejados e a expressão de tristeza. João Maria se retira da casa pra olhar o céu. O clima ficara pesado e o coração de João Maria também.
- São Francisco, interceda por nós.

Decorrem-se três meses. A seca que passam é umas das mais avassaladoras que já enfrentaram. Não há comida e ninguém quer vender mais fiado pra família de Dona Rosalinda. João Maria com os irmãos colhem as palmas que encontram pelas proximidades, a única planta que resiste em meio a uma seca tão arrebatadora. Todos comem, aquela planta amarga, procurando mastigar o menos possível, mas até as palmas estão se tornando difíceis de encontrar, e o desespero aumenta cada dia mais e mais. O neném de Lourdes chora o dia todo e isso se torna motivo de irritação para os demais irmãos de Ezequiel, inclusive João Maria. Todos acabam ficando com os nervos à flor da pele e acabam desabafando suas amarguras em cima do garotinho, para angústia de Lourdes. Ezequiel tenta pedir calma aos irmãos, muitas vezes em vão. Nem os animais conseguem ingerir a Palma, e muitos já morreram. Ezequiel, Samuel e Izaías vão para a cidade vender os animais que ainda estão vivos. Temem que não consigam chegar à cidade, mas enfim, todos que levaram foram vendidos por um preço irrisório. Eles preferiram se desfazer daqueles animais a tempo, mesmo os vendendo quase de graça do que vê-los morrerem aos poucos. O dinheiro daria para alguns dias de mantimentos, mas e depois? Todas as economias que lutaram durante anos estavam naqueles animais, e não havia mais outra forma de sustento. A palma já era um alimento difícil de se encontrar e ainda não havia nenhuma notícia de um novo emprego para Davi.

- Chegou essa carta de Davi. Fala Ezequiel passando para Lourdes a carta. Ela abre e novamente se põe a ler. Da leitura da carta surge um sorriso que cinge os presentes de esperança.
- Davi conseguiu um emprego! Fala Lourdes alegre.
- Graças ao meu bondoso Deus, muito obrigada Deus, pela graça concedida, fala Dona Rosalinda ajoelhada e erguendo as mãos pro céu. Todos os irmãos ficam contentes com a notícia.
- O Davi mandou avisar que está trabalhando em um supermercado e que o gerente perguntou se ele conhecia alguém que estivesse precisando de emprego. Ele pensou se de repente alguém quisesse trabalhar lá. Nesse momento todos olharam um para o outro sem saber o que responder da notícia.
- Eu vou mãe! Fala João Maria que está escorado na porta da entrada da casa.
- Filho...
- É melhor que eu vá. As coisas por aqui estão muito difíceis, não quero ficar dependendo do Davi pra sempre.
- Eu sei João, e eu concordo com você. Eu não tenho o porquê de segurar você, por que aqui não há nada pra oferecer.
- João, se você quiser ir a gente compra a passagem. Fala Ezequiel segurando as notas da venda dos animais. – Ainda sobrará um pouco pra comprarmos comida por algum tempo.
- Obrigado irmão. Não irei desapontar vocês. Todos abraçam João e ele já começa os preparativos para a viagem. Dona Rosalinda abraça o filho e o olha. Já está um rapaz feito, aquele que até pouco tempo era um menino serelepe que corria ao redor da casa brincando com os cabritos. Queria ela ter todos os filhos ao seu redor, como a galinha que protege com suas asas os pintinhos da chuva, mas sabia ela que era impossível tê-los por perto com tamanha dificuldade, e Dona Rosalinda olha para ele como já se fosse a despedida.

João Maria arruma todos os apetrechos para a sua viagem. Por um lado está ansioso e por outro apreensivo. Talvez do fundo do coração não gostaria de fazer essa viagem, mas não existe alternativa. O sertão não oferece chances para sobreviverem. Seus irmãos Paulo e Pedro se submetem a um trabalho escravo em uma lavoura no estado do Pará, e quanto mais trabalham, maior é a divida que tem com os patrões. A única solução era o Sudeste, que via nesse momento como um eldorado. As vezes quando via tv na casa de uns vizinhos, viam aqueles programas de auditório com pessoas arrumadas, bonitas, com bastante dinheiro e fartura. Imaginava que poderia estar assim dentro de poucos meses, e finalmente poderia dar uma situação digna para a sua mãe e toda a família. O dia anoitece e João Maria olha pela última vez o pôr-do-sol do sertão.
O vigoroso sol forte como as pessoas dessa terra. João Maria leva as mãos aos olhos como se quisesse chorar. Aquele sol que tantas vezes presenciou momentos de alegrias, tristezas e dificuldades. Agora se afastaria daquele sol. João Maria entra para ajudar a mãe a escolher o feijão. Estão todos alegres, pois o dinheiro das cabras deu para comprar alguns alimentos que não comiam há tempos.

O dia amanhece, o céu em um azul piscina infinito. João Maria já está arrumado. Seu irmão Samuel irá acompanhá-lo para comprar as passagens. Sua mãe preparou café e um bolo de fubá caprichado com o aroma de erva-doce para que João Maria coma com bastante gosto. Ela também fez outro tabuleiro para João comer durante a viagem. Dona Rosalinda se conforma de que a viagem será boa pro seu filho, assim ele poderá crescer na vida e viver o progresso de que os políticos tanto pregam. João Maria pega a sua bolsa de viagem, com algumas simples mudas de roupa, pente, imagem de São Francisco e outros apetrechos. Todos acompanham João Maria até o portão e ele faz questão de se despedir de cada um aos abraços, beijos e lágrimas.

- Filho, nunca se esqueça que sua mãe estará sempre aqui rezando por ti.
- Sim minha mãe, a benção.
- Deus te abençoe meu filho. João Maria caminha para a cidade com o seu irmão Samuel. Sempre entre uma curva e outra da deserta estrada era possível, ao olhar pra trás, ver os seus familiares do portão o observando. E cada vez que olhava pra trás via uma pessoa a menos, de forma que da última vez que olhou, só restava a sua mãe, naquele seu corpo fragilizado pelas lutas e pela idade, com as mãos atadas uma a outra, em forma de prece. E foi assim até que a última curva não fosse mais possível vê-la mais. Uma lágrima desceu do rosto de João Maria.
João Maria enquanto caminha tenta imaginar como seria essa cidade que só conhece da tv e de alguma revistas.
- E então irmão, pensando como serão as novidades da cidade? Pergunta Samuel. João Maria para um pouco pra pensar.
- Eu imagino muita gente, muitas pessoas, casas grandes, muita comida, bastante dinheiro, pessoas bonitas. Eu acho que o sol de lá deve ser diferente que o daqui. Por que o sol daqui e tão tranqüilo, nunca pede chuva e sempre está sozinho, sem nuvens. Eu acho que as pessoas devem ser diferentes lá por causa do sol. Samuel dá um ligeiro sorriso.
- As pessoas são diferentes lá por que existe o progresso.
- E o que é o progresso? Pergunta João Maria.
- O progresso? Bem... é algo que não existe aqui. João Maria caminha mais um pouco e torna a falar;
- Samuel, será que eles não vão me achar estranho na cidade deles?
- Claro que não João. Eles sempre precisam de pessoas para trabalhar na cidade. É por isso que eles pagam bem. Soube de um compadre que não ficou nem dois anos lá e já tinha comprado casa, terreno e tudo que tinha direito. João Maria ao ouvir aquilo ficou entusiasmado. Imaginava que assim que trabalhasse iria ganhar muito dinheiro, e poderia chamar toda a sua família para morar com ele, e assim poderia oferecer a vida que sua mãe sempre mereceu.

Os dois chegam na estação de ônibus, que irá partir em cerca de meia hora. Samuel pega a passagem e entrega para João.

- Está aqui a passagem João. Já avisei a Davi que você está a caminho.
- Obrigado Samuel.
- João, acreditamos em você. Não se esqueça que você já é um homem e isso existe responsabilidades. Agora vá que o ônibus já irá partir. João Maria abraça seu irmão e adentra o ônibus. Escolhe um lugar na janela, para que ainda possa se despedir do seu irmão pela última vez. O ônibus dá a partida e os dois se despedem como duas crianças.
- Mande lembranças ao Davi, grita Samuel.
- Cuidem bem da mamãe, grita João do ônibus. O ônibus faz a curva e segue viagem. João fecha a janela para a poeira da estrada não entrar. A partir dali já não conhece mais nada. João observa admirado a paisagem. Vê a sublime visão mudar aos seus mais nobres tons. Do marrom para o verde e do verde para o cinza, conforme vai se aproximando da cidade.




E lá se foi João Maria
Mais uma ave do sertão
Somente o que quer na vida
E poder comer seu Pão

Das terras dos confins do Nordeste,
dos confins do Ceará.
Aonde o sol e tão forte
Quanto esse povo de lá.


domingo, 1 de março de 2009

Salvador


Introdução: Bm F# Cº F G Bm F# Cº Dm Am Aº


Tudo começou quando te vi tão triste assim
E até se negou a contar o que havia em si
Insisti para me contar
Que podia desabafar
E que podia contar com o meu amor sem fim

De uma tal viagem ela revelou pra mim
Que iria embarcar no vôo pra ser feliz
Disse que ia estudar
Recomeçar em outro lugar
E que Salvador pra ela era o lugar mais ideal
Mas era minha prisão


Você pode fazer o que quiser
"Tô" pouco me importando com você
Não quero mais saber da sua vida
E fico até feliz por não te ver
E "tô" na rua, "tô" em qualquer lugar

Vou ir pra lagoa lá de Maricá
Vou subir a serra de Guapimirim
Vou me bronzear na ilha de Angra

Vou pegar a onda aqui em Arraial
Quero ver o sol se pôr em Parati
E curtir um Shopping lá da Zona Sul
Só pra te esquecer
Só pra me entender


Tudo acaba tendo um começo, meio e fim
E tento encontrar motivos pra não me ferir
Saio pra qualquer lugar
Vou curtir, me embalar
E mostrar que eu sei muito bem cuidar de mim

Só que muitas vezes uma lágrima rolou
E o seu retrato me faz sentir tanta dor
Fingo estar tudo bem
Mesmo não estando zen
Só que nesse jogo do amor quem sai perdendo
É aquele que engana o coração


Você pode fazer o que quiser
"Tô" pouco me importando com você
Não quero mais saber da sua vida
E fico até feliz por não te ver
E "tô" na rua, "tô" em qualquer lugar

Vou ir pra lagoa lá de Maricá
Vou subir a serra de Guapimirim
Vou me bronzear na ilha de Angra

Vou pegar a onda aqui em Arraial
Quero ver o sol se pôr em Parati
E curtir um Shopping lá da Zona Sul
Só pra te esquecer
Só pra me entender


E eu já não sei mais o que bem faço
Acostumado aos seus abraços
Sentindo falta do seu carinho
Das suas falas, do seu calor

E agora sinto que estou sozinho
Mesmo querendo me mostrar vivo
Pois o espelho que me reflete
Me trás a imagem de um cara triste

OH - OH - OH - OH
Eu vou direto pra Salvador
OH - OH - OH - OH
Preciso rever o meu amor
OH - OH - OH - OH
Eu vou direto pra Salvador
OH - OH - OH - OH
Sem escalas...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Por onde vai o mercado fonográfico?

Lú Magalhães, talento prodígio que negou contrato com gravadoras e hoje segue seu caminho independentemente, assim como muitos outros artista. De celular com seu nome à namoro com cantor quarentão, hoje ela é o primeiro grande sucesso brasileiro vindo pela internet.


Hoje o mercado fonográfico vive das migalhas do que plantou no passado. São raríssimas as exceções em que se consegue fazer um artista vender mais do que 100 mil cópias. Na Warner Music, a única que consegui tal feito foi a Maria Rita, que tem em torno de 140 mil cópias vendidas. Antigamente produzir um artista que vendesse mais que um milhão de cópias era algo normal. Se tivesse 200, 300 mil cópias, nem era considerado um grande artista. Os tempos mudam...

A culpa disso tudo, sem dúvida é da pirataria. E considero que hoje em dia existam três tipos de pirataria. A primeira é a pirataria da cópia de músicas feitas entre amigos. Antigamente se usavam fitas k-7, hoje em dia usam-se CD-R ou mesmo passam-se arquivos através do pen drive. Uma facilidade que proporciona uma grande comodidade. A segunda, acredito que perdeu grande força, que é venda de CDs por ambulantes, comercializando material pirata por cerca de R$ 5. Como hoje em dia a facilidade de obter música de graça, seja por amigos ou através da internet, essa pirataria enfraqueceu bastante, tendo os camelôs optando por vender DVDs de filmes, shows, etc... acredito que com o tempo ela deixe de existir. A terceira pirataria, é a mais arrebatadora, que é a de obtenção de músicas pela internet. A facilidade de baixar um álbum completo em poucos minutos, oferece a esses internautas a possibilidade de terem quantas músicas quiserem, sem pagar nada por isso, e o melhor, sem sair de casa. Nos últimos dez anos essa pirataria cresceu de forma extradionária, já que hoje, o Brasil é um país em que a grande maioria das famílias já possuem um computador em casa.

Estava olhando a quantidade de CDs vendidos do cantor Daniel. Há dez anos atrás o cd que foi lançado dele, vendeu mais de 1 milhão de cópias. Conforme passou o tempo, a cada lançamento a quantidade de CDs vendidos diminuiu. O último cd lançado dele pela Warner Music, uma coletânea com diversos sucessos dele, vendeu um pouco mais que 5 mil cópias. Pouco para um artista de renome conhecido pelo Brasil todo. O que fazer com esse cenário de pouca perspectiva?

É claro que as gravadoras arrumam outros meios de arrecadarem seu dinheiro. Se antes era pelo cd, hoje ganham nas participações do show dos artistas, etc... O marketing da gravadora também é fundamental para o sucesso dos mesmos, tendo os contatos de todos os meios de comunicação para promover o artista.

Mas apesar disso tudo, mesmo tendo trabalhando numa gravadora, fico um pouco cético quanto o futuro das mesmas. Será que elas estão realmente tirando proveito da era digital para promover seus artistas? Hoje, mundialmente falando, existem quatro grandes gravadoras: Universal, Sony/Bmg, Emi e Warner Music. Por terem artistas no mundo inteiro, possuem uma vantagem que é a de promoverem seus grandes artistas (a maioria, norte-americana, diga-se de passagem) pelos quatro cantos do mundo. Mas hoje, como sabemos, grandes bandas têm se revelado através da internet, sem a intervenção das gravadoras, fazendo relativo sucesso. Outras músicos preferem abandonar as gravadoras e cuidar do seu próprio negócio, como Madona e Radio Head.

Podemos dizer então que a Internet será o pilar fundamental para propagar o Marketing do artista, seja através de vídeos no Youtube ou faixas exclusivas na internet. Os artistas já sabem disso e começam a fazer suas experimentações. Em um show que fui pela gravadora, tinha ido assistir a um talento prodígio. O nome dela era Lú Magalhães e fazia sua apresentação na Cinemateche,em Botafogo. Na platéia da pequena casa de show, haviam pessoas ligadas ao meio musical, entre elas, poderosos do meio fonográfico, todos querendo contratá-la. Na internet ela é sucesso. Seus vídeos reúnem milhares de visitas, todas impressionadas com o seu talento. E adivinhem com qual gravadora ela assinou contrato? Com nenhuma! Se isso fosse a uns 10 anos atrás, poderiam chamá-la de louca diante da grande oportunidade da sua vida, mas hoje faz sentido. Assim como ela não precisou da gravadora pra fazer sucesso, precisando apenas da internet e do marketing viral que prestigia os verdadeiros talentos, ela também poderá não precisar da mesma para vender seu material. Pode muito bem fazer isso através de sites especializados em vendas de música digital. Aí atingimos o outro pilar da gravadora. A venda de material deixa de ser algo estruturável, onde as gravadoras tinham os melhores espaços nas prateleiras das lojas, para agora ser mais democrático. O usuário entra em um site e procura o que quiser para comprar com apenas uma opção de busca. Outra grande estrutura parece também ter sido atingida: a parte de gravação. As gravadoras muitas vezes preferem já iniciar com um material pronto ou deixar por conta do artista a responsabilidade da gravação. Isso faz parte da contenção de despesas diante dos novos tempos.

Se hoje os artistas parecem dar pouca importância para as gravadoras, qual será o futuro delas? Talvez elas não estejam atentas ao novo paradigma que está a frente delas. Usar a internet como aliada e não como inimiga. Nesse jogo não se ganha através das leis, e sim da conscientização.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Choro de Gaza








Novamente estamos envoltos ao terror da guerras. Como se não bastasse as atrocidades cometidas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, agora Israel despeja seu poderio bélico sob o minúsculo território de Gaza, onde se espremem 1,5 milhão de habitantes em um espaço um pouco menor que a cidade de Niterói.
Há tópicos atrás, quando toquei no assunto da guerra, mencionei um fato que pode ser considerado dos mais perversos que pode acontecer. O fato de crianças morrerem, sem nem mesmo saber do porquê de tanta crueldade e tanto ódio. Como pode, duas nações que possuem suas convicções religiosas, serem tão extremistas?







Não vou defender o Hamas, que é a força militar que tem o domínio sob o território de Gaza, já que eles incitaram a guerra, lançando mísseis ao território de Israel (acho até incoerente da parte deles, provocarem uma nação que possuí uma supremacia militar bastante superior a deles), mas o que Israel tem feito é um genocídio! As estatísticas são contraditórias, porém, o que se sabe é que eles não estão se importando em preservar a pobre nação palestina, que nada tem a ver com isso. Matam velhos, trabalhadores, mulheres, crianças... e infelizmente somos obrigados a ver as lamentosas notícias, a tristeza de muitas famílias, as lágrimas das crianças...







O que posso fazer, por mais ínfimo que seja, é desejar que esse povo tão sofrido, definitivamente tenha legitimidade quanto ao seu território; livre de forças opressoras e ditadoriais e que possa ser um lugar tranquilo onde as crianças possam crescer, os velhos possam regozijar e os homens de bem possam trabalhar em paz!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Melhor do voto!



Como todos os cidadãos brasileiros, atualmente ando um pouco desanimado quanto a escolha dos políticos que irão nos representar. Mas uma coisa me agrada e supera essas divergências políticas; em todas as eleições realizo meu voto no colégio ao qual estudei toda minha infância e parte da adolescência.

Passo pelos corredores aonde corria entre uma aula e outra, seja para brincar na hora do recreio ou para não me atrasar para a prova. A sala em que voto estudei minha 7ª série, era a sala da elite do colégio, não sei se ainda é...

Bastante coisa mudou por aqui. Fiquei olhando por entre a grade o pátio, já que o portão estava fechado e trancado. O pátio já não tinha mais o chafariz e as chácaras que as enfeitavam ao seu redor. Estava tudo acimentado, de uma forma que o espaço parecia ter aumentado. Olhei para a quadra de esportes aonde na hora do recreio eu e meus amigos costumávamos pegar latinhas de refrigerante, amassá-las bem e ficar chutando para um lado e para o outro. Ela recebeu uma bela pintura, estava nova e bem conservada, mas ainda mantinha as lembranças dos tempos outrora.

Ao fundo, no pátio maior, havia uma outra quadra que fora alí construída. Uma torre telefônica também foi instalada no campo de futebol ao fundo, tomando parte do seu espaço. O colégio parecia mais cinza do que antes, talvez por que não havia alunos alí, não havia aquela algazarra toda de cabeças gritantes que sabem ser felizes com as coisas simples da vida.

Fiquei segurando a grade e olhando para o infinito sem com isso perceber que estava sendo notado; visto pelos fiscais da eleição me olhando com um ar bastante repreensivo. "Estudei aqui", pensei em dizer, mas isso não os interessava; segui meu caminho de volta pra casa. Me veio a mente como estão os meus antigos amigos. Será que eles também sentem essa ponta de saudade que senti hoje? Por mais que aquele pátio, aquele cenário todo tenha se alterado, na minha lembrança sempre vai ficar o chafariz do pátio, as chácaras com suas plantas viçosas, o piso colorido, os bebedouros de torneira, etc...

domingo, 7 de setembro de 2008

Tempestade




A tristeza, talvez, seja um dos momentos mais sagrados e reveladores. Não há nenhum momento como esse, em que a pessoa possa efetivamente se conhecer, se auto-analisar, redefinir valores.



É na tristeza que nos tornamos fortes, que aprendemos coisas que conselhos não nos fazem sentir. Se há a amargura, também há a lição.



Não há um grande homem que não tenha passado pelos seus momentos de aflição. Eles nos ajudam a construir nossa própria identidade e a assumir posturas distintas diante das circustâncias da vida.



Afinal, o choro pode durar por uma noite, mas a alegria vem logo pela manhã...

domingo, 13 de julho de 2008

De braços abertos

Jornal O Globo, 12/07/2008
Essa semana pude ler algumas cartas que a minha irmã havia me enviado já há algum tempo. Não pude recebe-las em um prazo mais curto, culpa das constantes mudanças que tenho feito ultimamente. Acontece que nos últimos três anos, tenho levado uma vida cigana, me mudando de uma ponta a outra do estado do Rio, junto com a minha esposa e meus dois filhos. Tudo isso culpa das incorporações que tenho realizado nesses últimos tempos.

Tanta correria fez até me esquecer da minha irmã, meu único elo que me liga a infância, já que meus pais faleceram a exatamente 20 anos atrás, em um acidente de carro, quando estava prestes a completar quinze anos de idade. Minha irmã, mais nova do que eu por cinco anos, foi a que sentiu mais, já que era o xodó da casa.

Depois disso houve uma reviravolta em nossas vidas. Eu, por orientação dos tios e avós, fui estudar em um colégio militar em Angra dos Reis, enquanto minha irmã, foi morar com os pais do meu pai em Cachoreiras de Macacú. Passávamos a nos ver pouco, geralmente nas festas de família que eram organizadas. Ela sempre me abraçava, me beijava e perguntava como eu estava. Eu, mais comedido, seja por minha timidez, seja por minha formação militar, sempre retribuía seu carinho de forma menos expansiva, de modo que a cada encontro que fazíamos, parecia encontrar uma Gabriela diferente. Seu corpo se transformava, seus contornos revelavam uma linda mulher que estava por trás daquele corpo outrora.

Aos dezoito, quando me emancipei, sai do colégio militar e tomei minha parte da herança. Comprei um flat no Flamengo e depois de algum tempo entrei para a faculdade de engenharia. Essa seria outra perda de tempo em minha vida, tal como o Colégio Militar, se não fosse por ter conhecido minha esposa, Viviane. Desse tempo, eu já com meus vinte e tantos anos, decidi que deveria usar meu tino para o negócio. Em uma fazenda que o meu pai possuía em Iguaba Grande, região dos lagos, e estava praticamente abandonada, resolvi deslembrá-la em pequenos lotes, já que não havia interessados em comprá-la por inteiro. O sucesso foi total! Foram quase 200 lotes vendidos em menos de um ano. Daí foram tantos outros que decorreram após esse. Bacaxá, Rio das Ostras, Ponta Negra, Arraial do Cabo, Barra de São João, São Pedro da Aldeia, Araruama, Mangaratiba, entre outros... Estou iniciando agora um empreendimento em Angra dos Reis, onde estou morando já há seis meses e outro em Guapimirim, próximo ao "Dedo de Deus". Tenho contado bastante com a compreensão de minha esposa e meus filhos para isso. Daí as mudanças constantes como falei no início dessa epístola; do Rio de Janeiro, fui morar em Macaé, depois fui para Maricá, voltei para o Rio e agora cá estou em Angra, mas já deverei voltar para próximo da Região dos Lagos, aonde se concentram meus negócios.

Nessa época, minha irmã estava trabalhando como modelo e fazia diversas viagens pelo Brasil e no mundo, visitando todos os continentes. Linda como ela, com seus loiros cabelos compridos e seus cintilantes olhos azuis, fazia sucesso por onde passava. Eu costumava a ver mais em anúncios de revista ou em reportagens de moda do que pessoalmente, aliás, bem mais. Depois de casado, somente duas vezes a vi pessoalmente. Uma quando ela estava no Rio de Janeiro para um evento e outra no enterro da nossa avó. Ela fez questão de cancelar a turnê internacional para vê-la pela última vez. Nesse último dia em que a vi, isso já há uns seis anos, percebi ela bastante abatida, magra e com os olhos fundos... já era outra Gabriela que aparecia e isso me preocupava. Quis conversar com ela por longas horas, lhe dar conselhos, perguntar como estavam as coisas, mas apenas a abracei bem forte seu corpo contra o meu. Senti sua pele, seus ossos, por trás daquele manto preto que carregava em meio àquele luto familiar. Tal abraço me fez rememorar há diversos anos atrás, quando éramos crianças; eu com 11 e ela com 7, aonde brincávamos na fazenda do nosso pai em Iguaba Grande.

Meu pai possuía diversas vacas para a produção de leite que abasteciam boa parte da Região Serrana e Noroeste do Estado. Quando íamos para a fazenda, geralmente duas vezes ao mês, nos finais de semana, era uma festa! Brincávamos com os bichos, corríamos no longo pasto, devorávamos os doces feitos na fazenda, etc... No galpão, onde era guardado o feno que alimentava os bovinos, costumávamos brincar de saltar sobre essa erva fofa e cheirosa. Eu, sempre querendo bancar o destemido, pulava bem mais alto que a minha irmã, subindo nas escoras de madeira, que estavam montadas no canto do galpão para guardar utensílios diversos. Passávamos por um corredor até chegarmos a esse "trampolim", de onde pulávamos. Em um dia, minha irmã se desequilibrou nesse corredor e prendeu sua perna em uma fenda na madeira. Ela ficou de cabeça pra baixo e sua perna direita havia se fraturado.

- Socorro, Miguel, me ajude, eu vou cair! Dizia ela aos gritos para mim.
- Calma Gabriela, eu vou te ajudar. Enquanto ela chorava rapidamente fui pegando o feno que estava guardado no canto do galpão e colocando abaixo dela para amortecer a queda.
- Miguel, você está aí embaixo, dizia ela a mim.
- Estou sim, agüente mais um pouco! Peguei o que pude de feno e joguei embaixo dela, já exausto pelo esforço que havia feito.
- Miguel, eu não agüento mais...
- Tudo bem, pode cair! Com cerca de um metro de feno abaixo dela, ela largou a madeira que estava segurando de uma altura de cerca de 20 metros do chão. Eu estava embaixo dela, de braços abertos para tentar segura-lá. A segurei em meus braços e amorteci o impacto dela no chão. Acabei deslocando o pulso, tamanha a minha vontade de protege-la. Logo veio papai e alguns empregados da família que cuidaram de levá-la ao hospital. Mesmo ferida ela disse para todos que eu havia lhe salvado, como um herói de histórias em quadrinhos. Decorrido esse episódio, nunca mais brincamos de pular no feno, nem entramos naquele galpão.

Passado o enterro, minha irmã ainda fez várias viagens pelo mundo. Enviava várias cartas, perguntando como estavam os sobrinhos e contando dos lugares em que visitava. Eu, quando as recebia em tempo, as respondia, não com tanta ênfase. Falava das novidades, do que tinha de novo para contar. Abri uma carta que ela me enviou a três anos e só pude ler agora.


"Miguel;

Depois de tanto viajar pelo mundo, finalmente resolvi aposentar essa minha carreira de modelo, mas continuo no mundo da moda. Estou morando em Curitiba trabalhando com amigos em projetos de moda. E a Andressa? Já começaram a cair os dentes de leite? Como está o Bruninho no colégio?

Agora que estou no Brasil, poderemos nos falar com mais calma. Sinto sua falta!

Beijos carinhosos da sua irmã.

Gabi"


Pude sentir pela grafia da minha irmã, uma escrita tremida, imprecisa, como não havia visto em outras cartas, o que me causou estranheza. Já era noite, do meu quarto, podia ver a chuva caindo lá fora, molhando a janela. Havia outras cartas, datadas mais recentemente. Fiquei com receio de abrí-las. Depois de tantos anos separados, parecia que via novamente aquela mesma necessidade dela ser abraçada, de ser acolhida em meus braços. Sei que aprendeu muita coisa sozinha, desde quando Deus nos desgarrou dos nossos pais. Sempre era decidida nas coisas que queria, daí ser modelo, seu sonho de infância. Quando pequena, ela costumava desfilar pela sala, com as roupas que ganhava de presente. Eu e meus pais fazíamos platéia e sempre a aplaudíamos. No instante que estou abrindo a outra carta, chega o meu filho Bruno.

- Papai, papai. A mamãe está servindo a janta. Você não vem?
- Eu já estou indo filho. O papai só está terminando de ler essas cartas.
- São da tia Gabriela?
- São sim, mas depois eu lhe conto as notícias, ok?
- Está bem, papai.

Apesar dos meus filhos não terem muito contato com a Gabriela, sempre tenho o costume de contar nossas histórias de infância, de relembrar esses momentos que me trazem nostalgia, que me fazem reviver sensações, de relembrar pessoas que já não estão mais aqui. Vendo o Bruninho, e como se me visse como garoto. Não só pelos aspectos físicos, mas pela sua valentia, sua curiosidade. A Andressa sempre o acompanhando, como se fosse a Gabriela dos tempos passados. Lembro, em uma fazenda que havíamos adquirido, onde havia um lago ao fundo, o Bruno pegou uma rã e mostrou para todos. Naquele dia, era como se eu revivesse o passado, como se eu me visse em meu filho.

Abro mais uma carta e daí seguem várias outras. Em síntese, o mesmo apelo, de nos revermos, mas cada vez mais comprimidas e menos emotivas. Da última carta escrita a menos de duas semanas e que estava na minha antiga residência, estavam palavras que pareciam mais de despedida.

"Miguel;

Você sempre foi o meu herói. Sempre penso em você nos momentos de tristeza e solidão.

Eu tenho pensado muito ultimamente e cheguei a conclusão de que aquela rampa de madeira deveria ter quebrado antes que você pudesse colocar o feno todo lá embaixo.

Sua
Gabi"

Se eu as recebesse a tempo, certamente teria corrido ao seu encontro, mas essas cartas nunca chegaram. Agora sim, vejo como essa carta veio a contrastar com a notícia do Jornal O Globo de ontem. Seu corpo, servindo de escopo para o prazer alheio, para toda essa luxúria que em parte nos nutre e em parte nos consome. Em meus olhos quando os fecho, não vejo a Gabriela mulher, mas sim a pequena Gabi, sem seios, em mangas de camisa com o desenho do Mickey, pulando sobre o feno, brincando com os bichos.

Talvez, ela achasse e acredito nisso, em seu âmago, que eu estivesse lá em baixo para lhe abraçar.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

República Democrática do Créuuuuuuu


Já não é de ontem que somos rota do turismo sexual. Milhares de turistas, cheios de amor pra dar, vêm pra nossa terrinha atraídos pelas simpáticas bundas brasileiras que causam bastante repercussão mundo afora.

Causa ou conseqüência disso é que infelizmente o Brasil está em segundo lugar em imagens de pedofilia que são expostas na Internet, atrás apenas dos EUA.

Usar da inocência e/ou da pobreza para praticar sexo com alguém é realmente lamentável. Não é difícil ver nas estradas do Brasil, mães que oferecem suas filhas ao prazer alheio por R$ 5, um prato de comida ou mesmo uma latinha de refrigerante.*

Enquanto isso, a Mulher-melancia já ganhou mais de R$ 1 milhão pra mostrar o seu borogodó. Créu nelaaaaaaaa!!






* Fonte: Pastoral da Infância e Juventude

domingo, 25 de maio de 2008

Até às últimas conseqüências...

"-Escolha a sua arma!"



Chamei o mancebo para a praia, próximo as falésias e das fortes rebentações. O ano era 1863; estava possesso de raiva e minha fúria parecia irradiar pela minha retina. Augusto era o seu nome, era mais jovem que eu por cinco anos, mas sentia-se dono do mundo, como muitos desses jovens que acreditam que a vida irá lhes cercar de formosuras e ternuras. Este jovem ao qual lhe chamei para o embate, era o que havia tomado o amor daquela com que planejei ser a mãe dos meus filhos.

- O que você quer de mim César, eu estou aqui, disse ele.
- Augusto, você sabe muito bem qual é o motivo, não seja estúpido.
- César, eu tenho pena de você, um cara que se rasteja...
- Eu não preciso de sua pena, nem de sua compaixão... a única coisa que quero de você é distância. Apenas o chamei aqui por que precisamos encerrar esse assunto. Você jamais deveria ter ousado se aproximar de Isabel. Você sabe muito bem que ela me foi prometida por seus pais, que já estava conciliada com ela por dois anos e planejava o casamento.
- Ela nunca gostou de você César...
- Porque você se pôs em nossa frente, mequetrefe! Disse eu em tom tempestivo.
- Você é maluco César...
- Quando se ama nós somos capazes de tudo, mas isso é uma coisa que você não sabe... Tantas moças a espera de um rapaz e você se envolve com uma moça prometida. Seu biltre!

Augusto ficou calado, parecia meticular entre o que gostaria de falar, mas o que poderia ouvir. Talvez nunca tenha visto alguém lhe falar de homem-pra-homem como naquele momento. Parecia o cachorro que ladra mas não morde. Via aos poucos sua imagem de homem se desmoronar e dar lugar a uma criança indefesa, a alguém que necessitava de um colo, de uma proteção... que o defendesse.

- Augusto, você não irá viver comigo estando por perto, por que eu farei de sua vida um inferno. Por isso lhe proponho um embate. Sim, iremos duelar pela mulher das nossas vidas. Abro para ele um caixa cromada a pura prata, com detalhes da arte barroca, nela se encontram duas garruchas. - Se me venceres terás a Isabel para sempre ao seu lado, e não me terás em seu caminho, porém se eu vencer, a Isabel será minha, como sempre deveria ser. Acho bastante justo, levando-se em conta que ela era minha por direito. Ele olhou para as garruchas com os olhos marejados, talvez nunca visse uma arma daquelas tão próxima dele. Prossegui com o meu discurso: - Não tens coragem para desposar com a mulher de outrém? Certamente terás coragem para me enfrentar. Essas armas pertencem a minha família há três gerações. Deixarei que escolha a sua. Iremos nos enfrentar como nos velhos tempos.

Por mais uma vez ele olhou para as armas e para os meus olhos. Ele sabia que estava sem saída, pois não deixaria sair vivo dali, caso quisesse fugir. Melhor para ele seria me enfrentar e vencer em um duelo justo e de dois homens. O patife pegou sua arma, o que acredito ser, mais pela coloração dourada do que pela qualidade do seu disparo.
- Daremos vinte passos a partir desta reta. Marquei uma reta na areia com os pés. Mostrei para ele que ambas as armas estavam carregadas. Nos pusemos de costas um para o outro com as armas em punho. - Pronto? Disse eu.
- Sim, estou pronto.
- Podemos começar! Fomos caminhando dando os passos, um a um. Um de nós iria encontrar com a morte, iria sentir a dor sobrepujada pelo amor de uma mulher, eternizado no coração de sua amada.

Os vinte passos estavam terminando. Ao final do vigésimo passo, ele havia se virado antes do que eu, provavelmente apertou o passo, com o intuito de tirar vantagem. Foi o primeiro a disparar, e seu tiro acertou de raspão o meu ombro. A pólvora explodiu em meu corpo, fazendo estilhaços atingirem meu peito, meu pescoço e uma parte do meu rosto. Por sorte o tiro não foi fatal, e ele agora teria razões para rezar por causa disso. Mirei meticulosamente em seu peito, sobre o seu coração. Havia apenas uma munição em cada arma, logo, não havia nada que ele pudesse fazer. Disparei o tiro sobre o seu peito. O facínora foi lançado para trás, tamanha a força do disparo. Já caiu com os olhos abertos e sem vida. Respirei aliviado enquanto a fumaça no cano da garrucha enevoava meu campo de visão. Fui andando com um pouco de dificuldade, pelo meu ferimento, até o corpo do meu adversário.
- Morrestes como um homem, disse eu enquanto limpava a minha arma com um lenço. - Farei a Isabel feliz também pelo seu amor por ela. Não o desapontarei, disse eu, fazendo um juramento ao meu oponente jazido.

Peguei as garruchas e guardei como prova do amor que tinha pela Isabel. Olhei as ondas do mar naquele infinito azul, o sol com seu calor, as falésias ao fundo, com suas pedras que beijavam as ondas. Pude admirar o mundo de uma forma diferente e me sentir, como em poucas vezes na vida, que poderia fazer qualquer coisa que quisesse.

Eis que vejo, descendo descontroladamente as dunas ao fundo, a Isabel. Junto dela havia mais duas empregadas escravas da fazenda dos seus pais. Certamente alguns daqueles malditos escravos haviam visto eu com o Augusto e avisou a Isabel. Ela provavelmente já deveria suspeitar que algo desagradável haveria de acontecer.

- Meus Deus, o que houve por aqui? Disse ela aos gritos, enquanto via o corpo sem vida do Augusto. - Céus! Meu senhor, eu não acredito! Chega ela próximo ao corpo do Augusto. - Augusto fala comigo, por favor, Augusto! A Isabel nesse momento começa a misturar gritos com palavras de ternura, em uma chance de trazê-lo de volta. Suja as suas mãos com o sangue de Augusto, passa-lhe a mão sobre sua testa, encosta seus lábios nos lábios dele, enquanto as empregadas ao fundo soluçam e rezam o Pai-Nosso. Me aproximo por trás da Isabel, observando toda a sua consternação, exitando em dizer a causa de sua morte.

- Isabel, Isabel... tentava chamar a atenção dela enquanto ela deitava sobre o peito do Augusto aos prantos. - Se isso servir de consolo, ele duelou comigo pelo seu amor, morreu como um homem. Assim o fez... As palavras que havia dito pareciam não surtir efeito quanto as suas lamúrias. Aproximei-me um pouco mais dela e pûs minha mão sobre seu ombro, para confortá-la. - Agora nada mais poderá nos impedir de sermos felizes Isabel. Naquele momento Isabel se tornou possessa de tamanha fúria que jamais havia visto em uma mulher. Tirou entre seu vestido uma grande faca afiadíssima e desferiu um golpe em mim. Tentei desviar a tempo, mas isso não impediu que fizesse um generoso corte em meu braço esquerdo. - Por que fizestes isso contra mim? Eu sempre quis o teu bem!

- Eu nunca gostei de você! Nunca fui com esse casamento armado que os nossos familiares armaram para mim. Eu prefiro a morte a ter que viver com você! Com a faca em punho ela ateou contra sua barriga cortando-se de uma ponta a outra, sem dó. O sangue jorrava em uma grande velocidade. Seu vestido branco, agora, rapidamente tinha contornos de um vermelho intenso. O sangue descia e tingia as areias da praia. Ela se ajoelhou frente aquele ao qual sempre amou e deitou ao seu lado naquela fria areia, enquanto eu observava como coadjuvante toda aquela cena. Por que não fui eu aquele que estava alí? Preferia morrer, mas tendo seu amor eterno em meu peito, do que ver todo meu sentimento se perder como havia se perdido naquele instante. As escravas foram tentar reanimar Isabel, mas naquele momento eu já sabia que a morte lhe caía bem, já que era que o mais lhe confortava.

Ao fundo vejo outros escravos descendo as dunas, o barbeiro da cidade, o oficial do cartório, o padeiro, alguns funcionários públicos, mulheres do cortiço e outras pessoas mais. Parece que a notícia do nosso duelo havia corrido a cidade. Todos chegaram e observaram os corpos expostos no chão. Os cochichos começam a acontecer e já pudia perceber, entre alguns olhares e outros, as pessoas me acusarem como culpado do que acontecera. Estava disposto a não sair dalí, e enfrentar o que fosse necessário, pagar pelos meus possíveis erros.

- Assassino? Não tens vergonha do que fizestes? Disse um entusiasmado ao fundo.
- Você não sabe o que amar, não diga asneiras. Se soubesse o que é amar faria o mesmo que eu fiz.
- Que desfaçatez, disse o outro. - Canalha, merece o mesmo fim! Disse um outro mais certo de si.

As provocações começaram a se torna mais intensas, já iniciadas por empurrões e pequenas agressões. Não me perdoavam, nem mesmo por estar ferido, por ter vencido uma batalha justa! Um outro malandro me empurrou com mais força. Quis me levantar para tirar satisfação, quando surge em minha frente o capataz da fazenda dos meus pais.

- César, pelo amor de Deus não vê o que tú fizeste? Fuja daqui imediatamente antes que te linchem nessa praia. Decerto, o conselho do Jerônimo era sensato. Não poderia enfrentar todos eles, ainda mais ferido. Pûs-me a correr dalí, com dificuldades pelas minhas chagas expostas. Alguns pensaram em me perseguir, mas ao fim, deixaram que me lançasse à própria sorte.

Fui correndo e passando pela fazenda do seu Malaquias, dos laranjais que percorria na infância com meus amiguinhos e primos. Agora estava fugindo, como um bandido, sentindo o cheiro da morte em minha saliva... Lembrei-me do estábulo onde estavam os cavalos. Precisava de um deles para fugir e arquitetar meu plano final. Vi umas cordas bem grossas e sabia que elas eram necessárias para usar nesse meu "Gran Finale". Vi também o "Chilique", um cavalo que vi crescer, agora estava alí, forte e potente como um grande garanhão. Decidi que seria ele que iria levar comigo, já que vivenciei com ele boa parte da minha vida.

Montei a cela nele, e mesmo eu ferido, pude domá-lo com grande habilidade. Sempre tive afinidade com os animais e com os cavalos não poderia ser diferente. Fui atravessando a mata atlântica, muita parte devastada, é verdade, mas queria fugir para o interior, para onde houvesse mata-virgem. Queria que ninguém me avistasse, ninguém me encontrasse. Deixei que o Chilique me guiasse e parece que ele compreendeu o que desejava. Já havia terras que não mais conhecia, que nunca havia visto antes... estava me sentido cada vez mais longe desse mundo, e era isso que eu queria. Percebi que o Chilique estava cansado, e vi que já não havia mais necessidade de faze-lo cavalgar, já havia conseguido chegar a um local desejável.

Desci do Chilique e pûs minhas mãos em seu rosto, lhe agradecendo por tal gesto e me despedindo dele. O guiei com o arreio para que voltasse na direção de onde havíamos vindo. Após o Chilique ter seguido seu caminho, fui andado pela mata observando as árvores, a cachoeira mais ao fundo e algumas aves com os seu ninhos. Vi uma árvore com um tronco grosso e vigoroso. Quis me certificar se um dos seus caules suportaria meu peso. Fui subindo cautelosamente a árvore, com a corda enrolada em meu ombro direito. O esforço que estava fazendo, fez com que a ferida tornasse a sangrar, agora com mais intensidade. Tinha que agir depressa senão iria desmaiar. Finalmente consegui atingir o caule, estava em cima dele. Então, peguei cuidadosamente a corda e fui dando voltas pelo caule para ir fazendo os nós. Fiz um colarinho para pôr minha cabeça. Tudo já estava pronto, não havia mais nada que me fizesse ficar um instante vivo. Já perdi aquela pelo qual verti várias noites de sonhos e amputei os meus desejos mais lascivos, pelo celibato que havia guardado para ela. Agora tudo estava ao léu; filhos, casa, jardim, um casarão no distrito de Casemiro de Abreu, uma viagem a Veneza que já havia reservado o embarque... Acabou! Tudo foi ao chão como o meu corpo que estava prestes a lançar. Joguei-me com os pés bem próximos do chão. Fui ficando sem ar, meu rosto foi envermelhando, a grama começou a escurecer, escurecer....

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Acredita!

Faça de seus pensamentos a força de que está precisando. Esqueça as coisas ruins e limpe a mente cultivando somente bons pensamentos. Acredite no sucesso total, não imagine obstáculos na sua mente. Tudo que uma pessoa é capaz de planejar, ela é capaz de realizar. Tenha fé, otimismo e ação. Sua vida só você a vive. Portanto goste mais, acredite mais, e seja feliz. Procure plantar sementes de amor e otimismo na sua vida e você colherá sempre maravilhosos frutos.

Eu acredito em você!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O Ouro Verde


Há um tempo atrás, muito se falava a respeito do etanol, o álcool para os carros, feito a partir da cana-de-açúcar, elaborado pelos militares nos tempos de crise da OPEP no início dos anos 70. Com a estabilidade da gasolina nas décadas de 80 e 90, muitos davam como certo o álcool deixar de ser produzido. Só que com as constantes altas da gasolina iniciadas nesse século, energias alternativas para o consumo de combustível para os carros começaram a ser postas como prioridade.

Lembro-me até nessa época de constante foco sobre esse assunto, ter postado em uma comunidade, como segue abaixo:

http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=15850026&tid=2543585999710831955&start=1

Só que o tempo se passou e decorrido esse período não houve nenhum progresso. O petróleo continua subindo, os EUA continuam dando os subsídios para o seu álcool feito a partir do milho e que possui uma qualidade inferior ao "nosso" álcool e plantações são cultivadas em favor das máquinas.

Hugo Chávez, por mais repugnante que possa parecer, disse uma das poucas coisas que posso considerar de clara consciência: "estão devastando terras para alimentar os carros enquanto milhares morrem de fome". Isso faz sentido, ainda mais no cenário atual que o mundo vive. Os alimentos sofreram altas jamais vistas nos últimos tempos: trigo, arroz, soja, feijão... Aqueles brasileiros que ao menos conseguiam ter uma refeição digna poderão não ter mais, devido a esse colapso mundial. E isso tudo envolve questões ainda mais complexas, como a entrada da China como potencial consumidor. E ainda queremos arrumar espaço para alimentar os carros...

Não adianta, se ainda quiserem insistir com essa idéia de carros movidos a álcool, vamos ter que invadir a Amazônia e transformar floresta em plantação, para atendermos a demanda nacional e a de outros países.
Acredito (e torço por isso) que carros a álcool irão cair em desuso em pouco tempo, visto que existem inúmeras pesquisas que estão tendo sucesso quanto a carros movidos a energia elétrica, energia solar e outras energias limpas. Espero tão logo que eles possam ser feitos em escala industrial e que todos possam ter acesso a essa nova tecnologia. A natureza agradece!