domingo, 25 de maio de 2008

Até às últimas conseqüências...

"-Escolha a sua arma!"



Chamei o mancebo para a praia, próximo as falésias e das fortes rebentações. O ano era 1863; estava possesso de raiva e minha fúria parecia irradiar pela minha retina. Augusto era o seu nome, era mais jovem que eu por cinco anos, mas sentia-se dono do mundo, como muitos desses jovens que acreditam que a vida irá lhes cercar de formosuras e ternuras. Este jovem ao qual lhe chamei para o embate, era o que havia tomado o amor daquela com que planejei ser a mãe dos meus filhos.

- O que você quer de mim César, eu estou aqui, disse ele.
- Augusto, você sabe muito bem qual é o motivo, não seja estúpido.
- César, eu tenho pena de você, um cara que se rasteja...
- Eu não preciso de sua pena, nem de sua compaixão... a única coisa que quero de você é distância. Apenas o chamei aqui por que precisamos encerrar esse assunto. Você jamais deveria ter ousado se aproximar de Isabel. Você sabe muito bem que ela me foi prometida por seus pais, que já estava conciliada com ela por dois anos e planejava o casamento.
- Ela nunca gostou de você César...
- Porque você se pôs em nossa frente, mequetrefe! Disse eu em tom tempestivo.
- Você é maluco César...
- Quando se ama nós somos capazes de tudo, mas isso é uma coisa que você não sabe... Tantas moças a espera de um rapaz e você se envolve com uma moça prometida. Seu biltre!

Augusto ficou calado, parecia meticular entre o que gostaria de falar, mas o que poderia ouvir. Talvez nunca tenha visto alguém lhe falar de homem-pra-homem como naquele momento. Parecia o cachorro que ladra mas não morde. Via aos poucos sua imagem de homem se desmoronar e dar lugar a uma criança indefesa, a alguém que necessitava de um colo, de uma proteção... que o defendesse.

- Augusto, você não irá viver comigo estando por perto, por que eu farei de sua vida um inferno. Por isso lhe proponho um embate. Sim, iremos duelar pela mulher das nossas vidas. Abro para ele um caixa cromada a pura prata, com detalhes da arte barroca, nela se encontram duas garruchas. - Se me venceres terás a Isabel para sempre ao seu lado, e não me terás em seu caminho, porém se eu vencer, a Isabel será minha, como sempre deveria ser. Acho bastante justo, levando-se em conta que ela era minha por direito. Ele olhou para as garruchas com os olhos marejados, talvez nunca visse uma arma daquelas tão próxima dele. Prossegui com o meu discurso: - Não tens coragem para desposar com a mulher de outrém? Certamente terás coragem para me enfrentar. Essas armas pertencem a minha família há três gerações. Deixarei que escolha a sua. Iremos nos enfrentar como nos velhos tempos.

Por mais uma vez ele olhou para as armas e para os meus olhos. Ele sabia que estava sem saída, pois não deixaria sair vivo dali, caso quisesse fugir. Melhor para ele seria me enfrentar e vencer em um duelo justo e de dois homens. O patife pegou sua arma, o que acredito ser, mais pela coloração dourada do que pela qualidade do seu disparo.
- Daremos vinte passos a partir desta reta. Marquei uma reta na areia com os pés. Mostrei para ele que ambas as armas estavam carregadas. Nos pusemos de costas um para o outro com as armas em punho. - Pronto? Disse eu.
- Sim, estou pronto.
- Podemos começar! Fomos caminhando dando os passos, um a um. Um de nós iria encontrar com a morte, iria sentir a dor sobrepujada pelo amor de uma mulher, eternizado no coração de sua amada.

Os vinte passos estavam terminando. Ao final do vigésimo passo, ele havia se virado antes do que eu, provavelmente apertou o passo, com o intuito de tirar vantagem. Foi o primeiro a disparar, e seu tiro acertou de raspão o meu ombro. A pólvora explodiu em meu corpo, fazendo estilhaços atingirem meu peito, meu pescoço e uma parte do meu rosto. Por sorte o tiro não foi fatal, e ele agora teria razões para rezar por causa disso. Mirei meticulosamente em seu peito, sobre o seu coração. Havia apenas uma munição em cada arma, logo, não havia nada que ele pudesse fazer. Disparei o tiro sobre o seu peito. O facínora foi lançado para trás, tamanha a força do disparo. Já caiu com os olhos abertos e sem vida. Respirei aliviado enquanto a fumaça no cano da garrucha enevoava meu campo de visão. Fui andando com um pouco de dificuldade, pelo meu ferimento, até o corpo do meu adversário.
- Morrestes como um homem, disse eu enquanto limpava a minha arma com um lenço. - Farei a Isabel feliz também pelo seu amor por ela. Não o desapontarei, disse eu, fazendo um juramento ao meu oponente jazido.

Peguei as garruchas e guardei como prova do amor que tinha pela Isabel. Olhei as ondas do mar naquele infinito azul, o sol com seu calor, as falésias ao fundo, com suas pedras que beijavam as ondas. Pude admirar o mundo de uma forma diferente e me sentir, como em poucas vezes na vida, que poderia fazer qualquer coisa que quisesse.

Eis que vejo, descendo descontroladamente as dunas ao fundo, a Isabel. Junto dela havia mais duas empregadas escravas da fazenda dos seus pais. Certamente alguns daqueles malditos escravos haviam visto eu com o Augusto e avisou a Isabel. Ela provavelmente já deveria suspeitar que algo desagradável haveria de acontecer.

- Meus Deus, o que houve por aqui? Disse ela aos gritos, enquanto via o corpo sem vida do Augusto. - Céus! Meu senhor, eu não acredito! Chega ela próximo ao corpo do Augusto. - Augusto fala comigo, por favor, Augusto! A Isabel nesse momento começa a misturar gritos com palavras de ternura, em uma chance de trazê-lo de volta. Suja as suas mãos com o sangue de Augusto, passa-lhe a mão sobre sua testa, encosta seus lábios nos lábios dele, enquanto as empregadas ao fundo soluçam e rezam o Pai-Nosso. Me aproximo por trás da Isabel, observando toda a sua consternação, exitando em dizer a causa de sua morte.

- Isabel, Isabel... tentava chamar a atenção dela enquanto ela deitava sobre o peito do Augusto aos prantos. - Se isso servir de consolo, ele duelou comigo pelo seu amor, morreu como um homem. Assim o fez... As palavras que havia dito pareciam não surtir efeito quanto as suas lamúrias. Aproximei-me um pouco mais dela e pûs minha mão sobre seu ombro, para confortá-la. - Agora nada mais poderá nos impedir de sermos felizes Isabel. Naquele momento Isabel se tornou possessa de tamanha fúria que jamais havia visto em uma mulher. Tirou entre seu vestido uma grande faca afiadíssima e desferiu um golpe em mim. Tentei desviar a tempo, mas isso não impediu que fizesse um generoso corte em meu braço esquerdo. - Por que fizestes isso contra mim? Eu sempre quis o teu bem!

- Eu nunca gostei de você! Nunca fui com esse casamento armado que os nossos familiares armaram para mim. Eu prefiro a morte a ter que viver com você! Com a faca em punho ela ateou contra sua barriga cortando-se de uma ponta a outra, sem dó. O sangue jorrava em uma grande velocidade. Seu vestido branco, agora, rapidamente tinha contornos de um vermelho intenso. O sangue descia e tingia as areias da praia. Ela se ajoelhou frente aquele ao qual sempre amou e deitou ao seu lado naquela fria areia, enquanto eu observava como coadjuvante toda aquela cena. Por que não fui eu aquele que estava alí? Preferia morrer, mas tendo seu amor eterno em meu peito, do que ver todo meu sentimento se perder como havia se perdido naquele instante. As escravas foram tentar reanimar Isabel, mas naquele momento eu já sabia que a morte lhe caía bem, já que era que o mais lhe confortava.

Ao fundo vejo outros escravos descendo as dunas, o barbeiro da cidade, o oficial do cartório, o padeiro, alguns funcionários públicos, mulheres do cortiço e outras pessoas mais. Parece que a notícia do nosso duelo havia corrido a cidade. Todos chegaram e observaram os corpos expostos no chão. Os cochichos começam a acontecer e já pudia perceber, entre alguns olhares e outros, as pessoas me acusarem como culpado do que acontecera. Estava disposto a não sair dalí, e enfrentar o que fosse necessário, pagar pelos meus possíveis erros.

- Assassino? Não tens vergonha do que fizestes? Disse um entusiasmado ao fundo.
- Você não sabe o que amar, não diga asneiras. Se soubesse o que é amar faria o mesmo que eu fiz.
- Que desfaçatez, disse o outro. - Canalha, merece o mesmo fim! Disse um outro mais certo de si.

As provocações começaram a se torna mais intensas, já iniciadas por empurrões e pequenas agressões. Não me perdoavam, nem mesmo por estar ferido, por ter vencido uma batalha justa! Um outro malandro me empurrou com mais força. Quis me levantar para tirar satisfação, quando surge em minha frente o capataz da fazenda dos meus pais.

- César, pelo amor de Deus não vê o que tú fizeste? Fuja daqui imediatamente antes que te linchem nessa praia. Decerto, o conselho do Jerônimo era sensato. Não poderia enfrentar todos eles, ainda mais ferido. Pûs-me a correr dalí, com dificuldades pelas minhas chagas expostas. Alguns pensaram em me perseguir, mas ao fim, deixaram que me lançasse à própria sorte.

Fui correndo e passando pela fazenda do seu Malaquias, dos laranjais que percorria na infância com meus amiguinhos e primos. Agora estava fugindo, como um bandido, sentindo o cheiro da morte em minha saliva... Lembrei-me do estábulo onde estavam os cavalos. Precisava de um deles para fugir e arquitetar meu plano final. Vi umas cordas bem grossas e sabia que elas eram necessárias para usar nesse meu "Gran Finale". Vi também o "Chilique", um cavalo que vi crescer, agora estava alí, forte e potente como um grande garanhão. Decidi que seria ele que iria levar comigo, já que vivenciei com ele boa parte da minha vida.

Montei a cela nele, e mesmo eu ferido, pude domá-lo com grande habilidade. Sempre tive afinidade com os animais e com os cavalos não poderia ser diferente. Fui atravessando a mata atlântica, muita parte devastada, é verdade, mas queria fugir para o interior, para onde houvesse mata-virgem. Queria que ninguém me avistasse, ninguém me encontrasse. Deixei que o Chilique me guiasse e parece que ele compreendeu o que desejava. Já havia terras que não mais conhecia, que nunca havia visto antes... estava me sentido cada vez mais longe desse mundo, e era isso que eu queria. Percebi que o Chilique estava cansado, e vi que já não havia mais necessidade de faze-lo cavalgar, já havia conseguido chegar a um local desejável.

Desci do Chilique e pûs minhas mãos em seu rosto, lhe agradecendo por tal gesto e me despedindo dele. O guiei com o arreio para que voltasse na direção de onde havíamos vindo. Após o Chilique ter seguido seu caminho, fui andado pela mata observando as árvores, a cachoeira mais ao fundo e algumas aves com os seu ninhos. Vi uma árvore com um tronco grosso e vigoroso. Quis me certificar se um dos seus caules suportaria meu peso. Fui subindo cautelosamente a árvore, com a corda enrolada em meu ombro direito. O esforço que estava fazendo, fez com que a ferida tornasse a sangrar, agora com mais intensidade. Tinha que agir depressa senão iria desmaiar. Finalmente consegui atingir o caule, estava em cima dele. Então, peguei cuidadosamente a corda e fui dando voltas pelo caule para ir fazendo os nós. Fiz um colarinho para pôr minha cabeça. Tudo já estava pronto, não havia mais nada que me fizesse ficar um instante vivo. Já perdi aquela pelo qual verti várias noites de sonhos e amputei os meus desejos mais lascivos, pelo celibato que havia guardado para ela. Agora tudo estava ao léu; filhos, casa, jardim, um casarão no distrito de Casemiro de Abreu, uma viagem a Veneza que já havia reservado o embarque... Acabou! Tudo foi ao chão como o meu corpo que estava prestes a lançar. Joguei-me com os pés bem próximos do chão. Fui ficando sem ar, meu rosto foi envermelhando, a grama começou a escurecer, escurecer....

8 comentários:

Brrrruna disse...

A-DO-REI!
Lindo texto... gostei também da escolha dos nomes para os bravos: Cesar, Augusto..
Sugestivos!

Beijos!!

Anônimo disse...

Caracaaaaaaaaaaaa!!!

Me senti lendo um conto de Machado de Assis com Nelson Rodrgues..rsrs

Me fala quando sair o livro com os melhores contos (pq eu vou abrir a livraria pra comprar!!)

E, pelo amor de Deus, me fala q vc tá registrando isso td bonitinho antes de lançar na net, ok??? Não quero ver plagiadores daqui a um tempo...

Beijos!!!!

Anônimo disse...

leandro...

eu n sabia q vc tinha esse talento todo...

assino em baixo do q a Re falou!

acho q poderia ter tido um fim menos trágico (afinal, eu sou uma romantica inveterada!)
mas, tah otimo.
gostei mto!


bjao!

Anônimo disse...

que bonito isso aí. muito bom saber dessa qualidade. parabéns pelas metáforas e o encadeamento. mas melhor é saber que você tem cabeça aberta para outras coisas e potencial.

Anônimo disse...

O texto não deve nada à uma obra da literatura antiga nacional. Tem muita qualidade. Realmente o Machado de Assis incorporou em você ou entou apareceu canalizado para te dar umas dicas.

Anônimo disse...

Q show, leandro!! gostei msm!!
Especialmente da forma obscura como vc foi descrevendo o final da cena.
Fantástico!

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Qd vc publicar o seu livro ..promete colocar meu nome na dedicatória¿ Mt bom..coisa d profissional ! O Augusto veio la de 1863 e reencarnou em vc..só pode ser.. Eu gosto de estórias assim..em que se é possível viajar na cena e imaginar o cenário, os personagens, sentir as emoções deles ! Parabéns !!