domingo, 13 de julho de 2008

De braços abertos

Jornal O Globo, 12/07/2008
Essa semana pude ler algumas cartas que a minha irmã havia me enviado já há algum tempo. Não pude recebe-las em um prazo mais curto, culpa das constantes mudanças que tenho feito ultimamente. Acontece que nos últimos três anos, tenho levado uma vida cigana, me mudando de uma ponta a outra do estado do Rio, junto com a minha esposa e meus dois filhos. Tudo isso culpa das incorporações que tenho realizado nesses últimos tempos.

Tanta correria fez até me esquecer da minha irmã, meu único elo que me liga a infância, já que meus pais faleceram a exatamente 20 anos atrás, em um acidente de carro, quando estava prestes a completar quinze anos de idade. Minha irmã, mais nova do que eu por cinco anos, foi a que sentiu mais, já que era o xodó da casa.

Depois disso houve uma reviravolta em nossas vidas. Eu, por orientação dos tios e avós, fui estudar em um colégio militar em Angra dos Reis, enquanto minha irmã, foi morar com os pais do meu pai em Cachoreiras de Macacú. Passávamos a nos ver pouco, geralmente nas festas de família que eram organizadas. Ela sempre me abraçava, me beijava e perguntava como eu estava. Eu, mais comedido, seja por minha timidez, seja por minha formação militar, sempre retribuía seu carinho de forma menos expansiva, de modo que a cada encontro que fazíamos, parecia encontrar uma Gabriela diferente. Seu corpo se transformava, seus contornos revelavam uma linda mulher que estava por trás daquele corpo outrora.

Aos dezoito, quando me emancipei, sai do colégio militar e tomei minha parte da herança. Comprei um flat no Flamengo e depois de algum tempo entrei para a faculdade de engenharia. Essa seria outra perda de tempo em minha vida, tal como o Colégio Militar, se não fosse por ter conhecido minha esposa, Viviane. Desse tempo, eu já com meus vinte e tantos anos, decidi que deveria usar meu tino para o negócio. Em uma fazenda que o meu pai possuía em Iguaba Grande, região dos lagos, e estava praticamente abandonada, resolvi deslembrá-la em pequenos lotes, já que não havia interessados em comprá-la por inteiro. O sucesso foi total! Foram quase 200 lotes vendidos em menos de um ano. Daí foram tantos outros que decorreram após esse. Bacaxá, Rio das Ostras, Ponta Negra, Arraial do Cabo, Barra de São João, São Pedro da Aldeia, Araruama, Mangaratiba, entre outros... Estou iniciando agora um empreendimento em Angra dos Reis, onde estou morando já há seis meses e outro em Guapimirim, próximo ao "Dedo de Deus". Tenho contado bastante com a compreensão de minha esposa e meus filhos para isso. Daí as mudanças constantes como falei no início dessa epístola; do Rio de Janeiro, fui morar em Macaé, depois fui para Maricá, voltei para o Rio e agora cá estou em Angra, mas já deverei voltar para próximo da Região dos Lagos, aonde se concentram meus negócios.

Nessa época, minha irmã estava trabalhando como modelo e fazia diversas viagens pelo Brasil e no mundo, visitando todos os continentes. Linda como ela, com seus loiros cabelos compridos e seus cintilantes olhos azuis, fazia sucesso por onde passava. Eu costumava a ver mais em anúncios de revista ou em reportagens de moda do que pessoalmente, aliás, bem mais. Depois de casado, somente duas vezes a vi pessoalmente. Uma quando ela estava no Rio de Janeiro para um evento e outra no enterro da nossa avó. Ela fez questão de cancelar a turnê internacional para vê-la pela última vez. Nesse último dia em que a vi, isso já há uns seis anos, percebi ela bastante abatida, magra e com os olhos fundos... já era outra Gabriela que aparecia e isso me preocupava. Quis conversar com ela por longas horas, lhe dar conselhos, perguntar como estavam as coisas, mas apenas a abracei bem forte seu corpo contra o meu. Senti sua pele, seus ossos, por trás daquele manto preto que carregava em meio àquele luto familiar. Tal abraço me fez rememorar há diversos anos atrás, quando éramos crianças; eu com 11 e ela com 7, aonde brincávamos na fazenda do nosso pai em Iguaba Grande.

Meu pai possuía diversas vacas para a produção de leite que abasteciam boa parte da Região Serrana e Noroeste do Estado. Quando íamos para a fazenda, geralmente duas vezes ao mês, nos finais de semana, era uma festa! Brincávamos com os bichos, corríamos no longo pasto, devorávamos os doces feitos na fazenda, etc... No galpão, onde era guardado o feno que alimentava os bovinos, costumávamos brincar de saltar sobre essa erva fofa e cheirosa. Eu, sempre querendo bancar o destemido, pulava bem mais alto que a minha irmã, subindo nas escoras de madeira, que estavam montadas no canto do galpão para guardar utensílios diversos. Passávamos por um corredor até chegarmos a esse "trampolim", de onde pulávamos. Em um dia, minha irmã se desequilibrou nesse corredor e prendeu sua perna em uma fenda na madeira. Ela ficou de cabeça pra baixo e sua perna direita havia se fraturado.

- Socorro, Miguel, me ajude, eu vou cair! Dizia ela aos gritos para mim.
- Calma Gabriela, eu vou te ajudar. Enquanto ela chorava rapidamente fui pegando o feno que estava guardado no canto do galpão e colocando abaixo dela para amortecer a queda.
- Miguel, você está aí embaixo, dizia ela a mim.
- Estou sim, agüente mais um pouco! Peguei o que pude de feno e joguei embaixo dela, já exausto pelo esforço que havia feito.
- Miguel, eu não agüento mais...
- Tudo bem, pode cair! Com cerca de um metro de feno abaixo dela, ela largou a madeira que estava segurando de uma altura de cerca de 20 metros do chão. Eu estava embaixo dela, de braços abertos para tentar segura-lá. A segurei em meus braços e amorteci o impacto dela no chão. Acabei deslocando o pulso, tamanha a minha vontade de protege-la. Logo veio papai e alguns empregados da família que cuidaram de levá-la ao hospital. Mesmo ferida ela disse para todos que eu havia lhe salvado, como um herói de histórias em quadrinhos. Decorrido esse episódio, nunca mais brincamos de pular no feno, nem entramos naquele galpão.

Passado o enterro, minha irmã ainda fez várias viagens pelo mundo. Enviava várias cartas, perguntando como estavam os sobrinhos e contando dos lugares em que visitava. Eu, quando as recebia em tempo, as respondia, não com tanta ênfase. Falava das novidades, do que tinha de novo para contar. Abri uma carta que ela me enviou a três anos e só pude ler agora.


"Miguel;

Depois de tanto viajar pelo mundo, finalmente resolvi aposentar essa minha carreira de modelo, mas continuo no mundo da moda. Estou morando em Curitiba trabalhando com amigos em projetos de moda. E a Andressa? Já começaram a cair os dentes de leite? Como está o Bruninho no colégio?

Agora que estou no Brasil, poderemos nos falar com mais calma. Sinto sua falta!

Beijos carinhosos da sua irmã.

Gabi"


Pude sentir pela grafia da minha irmã, uma escrita tremida, imprecisa, como não havia visto em outras cartas, o que me causou estranheza. Já era noite, do meu quarto, podia ver a chuva caindo lá fora, molhando a janela. Havia outras cartas, datadas mais recentemente. Fiquei com receio de abrí-las. Depois de tantos anos separados, parecia que via novamente aquela mesma necessidade dela ser abraçada, de ser acolhida em meus braços. Sei que aprendeu muita coisa sozinha, desde quando Deus nos desgarrou dos nossos pais. Sempre era decidida nas coisas que queria, daí ser modelo, seu sonho de infância. Quando pequena, ela costumava desfilar pela sala, com as roupas que ganhava de presente. Eu e meus pais fazíamos platéia e sempre a aplaudíamos. No instante que estou abrindo a outra carta, chega o meu filho Bruno.

- Papai, papai. A mamãe está servindo a janta. Você não vem?
- Eu já estou indo filho. O papai só está terminando de ler essas cartas.
- São da tia Gabriela?
- São sim, mas depois eu lhe conto as notícias, ok?
- Está bem, papai.

Apesar dos meus filhos não terem muito contato com a Gabriela, sempre tenho o costume de contar nossas histórias de infância, de relembrar esses momentos que me trazem nostalgia, que me fazem reviver sensações, de relembrar pessoas que já não estão mais aqui. Vendo o Bruninho, e como se me visse como garoto. Não só pelos aspectos físicos, mas pela sua valentia, sua curiosidade. A Andressa sempre o acompanhando, como se fosse a Gabriela dos tempos passados. Lembro, em uma fazenda que havíamos adquirido, onde havia um lago ao fundo, o Bruno pegou uma rã e mostrou para todos. Naquele dia, era como se eu revivesse o passado, como se eu me visse em meu filho.

Abro mais uma carta e daí seguem várias outras. Em síntese, o mesmo apelo, de nos revermos, mas cada vez mais comprimidas e menos emotivas. Da última carta escrita a menos de duas semanas e que estava na minha antiga residência, estavam palavras que pareciam mais de despedida.

"Miguel;

Você sempre foi o meu herói. Sempre penso em você nos momentos de tristeza e solidão.

Eu tenho pensado muito ultimamente e cheguei a conclusão de que aquela rampa de madeira deveria ter quebrado antes que você pudesse colocar o feno todo lá embaixo.

Sua
Gabi"

Se eu as recebesse a tempo, certamente teria corrido ao seu encontro, mas essas cartas nunca chegaram. Agora sim, vejo como essa carta veio a contrastar com a notícia do Jornal O Globo de ontem. Seu corpo, servindo de escopo para o prazer alheio, para toda essa luxúria que em parte nos nutre e em parte nos consome. Em meus olhos quando os fecho, não vejo a Gabriela mulher, mas sim a pequena Gabi, sem seios, em mangas de camisa com o desenho do Mickey, pulando sobre o feno, brincando com os bichos.

Talvez, ela achasse e acredito nisso, em seu âmago, que eu estivesse lá em baixo para lhe abraçar.

5 comentários:

Anônimo disse...

Infelizmente, essa parece ser a história de muitas meninas por aí.
Triste!

Leandro,
adoro ler os seus textos!!!!
Já te disse isso, neh?!!
Estão ficando cada vez melhores!!
Adorei!

bjao!

Anônimo disse...

Sorte do cara. Se ele tivesse feito administração ao invés de engenharia, teria que fazer o mesmo que ela fez pra sobreviver!
hehehe

Bom texto cara, parabéns!

Anônimo disse...

Te proponho um desafio!! Escrever sobre estórias bonitas e com final feliz. Com tantas tragédias reais nao precisamos disso na ficção ,ne ? Eu diria que a história de Gabriela pode ter sido bem pior que esta..afinal um irmão tão carinhoso não levaria 3 anos p ler uma carta...
D qq forma..por oras tive dúvidas..tamanha a veracidade da narração..
Vc é o cara !!
bjusss !!
Depois me dá um autógrafo^:)

Anônimo disse...

Nossa!!!!!

Mesmo com essa história triste (e surpreentemente fictícia) tem alguém que faz piada.... ¬¬

Cara, segue MESMO o meu conselho e registra esses textos pq eu quero lê-los numa coletânea de Leandro Vieira.

Parabéns, Cara!

Rog's gonna do...in 2008 ! disse...

uau !!!

temos um novo concorrente para o pretensioso cantelmo kkkkkkkkk

uhiuhaiuhaia

parabéns meu amigo, publique os SEUS TEXTOS sim e sucesso !!

;)